quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ESTRANHEZA ILUMINADA


Ela chegou a uma conclusão iluminada: “Você não me pertence mais.” Estranha constatação. Seria triste? Era, ao menos, cheia de alívio.
Agora se pegava investigando a si mesma e percebia que não era nada confortável a sensação de alguém lhe pertencer. Sentiu-se leve, cantarolou uma canção de sua juventude: "Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa. Muito leve, leve pousa..." Soltou todo o ar dos pulmões como se expelisse todo o enfado que a incomodava.
Começou a elaborar na mente uma lista de coisas que preencheriam de felicidade o vazio deixado pelos anos que dedicou ao ex-marido: ler bons romances, ouvir mais música, cuidar melhor do seu jardim, viajar mais... “Ex é pra sempre”. O que a amiga quis dizer com isso? Ele seria apenas como a presença de fotografias sepultadas em álbuns esquecidos... Viveria seu resto de tempo sem se lamentar, sem se incomodar como ele resolveria tocar seu barco pra frente. Só tinha medo de uma coisa: querer amar novamente. Ai... essa possibilidade dava calafrios em sua espinha, uma ansiedade incômoda, um pensamento que ela imediatamente tratava de descartar, de fugir. Já não havia mais tempo, já não conservava no rosto o viço que o amor exigia. “O amor não conhece idade, credo, cor, sexo.” Novamente a voz da amiga a contradizer suas ideias mais confortáveis... Poderia preencher esse sentimento com outros; afinal não se pode amar apenas de uma forma. Tinha os filhos para quem ainda poderia ligar, passar as férias, já tinha até netos... “Chegará um momento em que as plantas do jardim já não serão companhias tão vivas”. Ai, também essa amiga não ajudava em nada... Queria provar que Jobim estava errado: deve ser possível ser feliz sozinha... Seria? Pelo menos não tinha medo da solidão, só não gostava do silêncio. O silêncio dava margem para que se perdesse nesses pensamentos insólitos. Despertou do devaneio com o enroscado e o miado de Josephine em suas canelas. Eram somente as duas agora; mas Josephine tinha o privilégio de não se questionar.


Hérlon Fernandes Gomes
09 de dezembro de 2009.

7 comentários:

  1. A "amiga" citada pela personagem parece ser cheia de conceitos...perigosa forma de viver. É provavel mesmo que Josephine seja uma excelente companhia.
    Abração!
    Magna

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  2. Passando pra lhe deixar rosas perfumadas...

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  3. Herlim, o "amor" é o mais teimoso dos substantivos. E sempre que a dor do velho amorcessa e a cicatriz fechae ele vem imponente,nos mata pelo cansaço e nos vence. Ainda bem!!!!
    Você é especial.
    Rachel Alves Gomes

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  4. Bom receber sempre as visitas de vocês: Magna, Rachel e as flores anônimas!
    Abraços!

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  5. Que texto bom Hérlon, desses que levam quem lê até o fim com ar curioso...adorei Josephinereclamando carinho "nas canelas", e adorei o fato de a tal senhora cortar as tranças, quebrar os sapatos de vidro, e enterrar a maçã podre com aquele verme inominável em seu centro...o amor romântico. Lembra a Mulher Desiludida da Beauvoir...é assustador, ao mesmo tempo, pq eu queria que acontecesse mais cedo...que as mulheres deixassem de ser 'mulheres' mais cedo...

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. "..mas Josephine tinha o privilégio de não se questionar."

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