segunda-feira, 20 de junho de 2011

MISTÉRIO DE UMA NOITE DE SÃO JOÃO



Foi o São João de 1992. A casa estava cheia. Todos os filhos, todos os netos. No terreiro, homens se empenhavam em aumentar ainda mais a pirâmide que seria a fogueira de logo à noite. Na cozinha, fervilhavam caldeirões com pamonhas; titia Alice batia ovos para bolo de pão-de-ló; a empregada Maria embriagava-se escondida nos preparos do quentão e do leite-de-onça; nós, as crianças, contávamos o arsenal de bombas, traques e chuvinhas que explodiríamos mais tarde; vovó, filhas e netas cortavam papel de seda para a confecção de correntes e bandeirolas que adornariam o terreiro; a velha vitrola animava o ambiente com forrós de Luiz Gonzaga...

À noite, apontou a orquestra de zambumbas, sanfonas e triângulos. Fogos estouravam no ar. A fogueira começava a arder. Uma quadrilha improvisada formou-se.

Para mim, o São João sempre foi uma das melhores festas do ano. É o carnaval sertanejo. Mas, a parte que eu mais gostava era um momento cheio de mistério que só os corajosos topavam. Não se tratava de explodir a maior bomba, não se tratava em pular a fogueira no auge de suas chamas... Tudo isso tinha lá a sua diversão, porém o que mais me chamava à atenção era o momento da bacia branca.

Acho que esse oráculo não é um feitio apenas do Cariri, o fato é que no sítio dos meus avós, sempre foi uma tradição. Consistia no seguinte: quando a fogueira estava com as chamas já vacilantes, o suficiente para se conseguir aproximar dos torrões de brasas, enchia-se uma bacia branca virgem com água e posicionava-a o mais próximo possível do fogo brando. O ritual consiste em ajoelhar-se perante a bacia e enxergar o próprio rosto. Reza a lenda que quem consegue realizar a façanha, enxerga, na verdade a face da própria alma no futuro e, portanto, estará vivo no ano seguinte para contemplar mais uma festa de São João.

Superstições à parte, muitos não tinham coragem de participar do oráculo. O velho Otílio, por exemplo, naquele ano já contava com mais de oitenta e cinco anos e resolveu não querer saber mais se ano que vem estaria vivo ou não, preferia a ignorância. Meu pai foi o primeiro a encarar o desafio e ,dentre em poucos segundos, levantou-se anunciando que se viu claramente. Minha mãe repetiu a façanha, seguida de todos os filhos. Vovó Hozana, sempre muito supersticiosa, dispensou o desafio, preferia não saber. Tinha medo de ficar "impressionada". Vovó perdeu o pai em tenra idade, vítima de um infarto fulminante quando aquele contava apenas trinta anos de idade, deixando viúva a mãe com cinco crianças pequenas. Ao pé da fogueira ela contava aos netos que viu o pai angustiado por não ter conseguido enxergar o próprio rosto um ano antes. Ele morrera no mês de maio do ano seguinte, um mês antes do São João, cumprindo o prognóstico do oráculo... O relato de vovó despertava histórias parecidas de gente que se juntava para contar também seus dramas íntimos. Até que, percebemos que faltou vovô se olhar na bacia. Meu pai incitou-lhe: “Oxente, Seu Zé, tá com medo da Morte?”.

O velho Zé Milagres era um leão forte, de inspiradora segurança e não gostava de ser desafiado: “Pra quem já viveu oitenta anos, o que é um ano a mais ou a menos?” Ajoelhou-se, franziu o cenho, virava a cabeça para um lado, para o outro, cobria a testa em busca de uma sombra ante as brasas para que facilitasse o reflexo... Debalde. Levantou-se, sacudiu a poeira dos joelhos e anunciou, firmemente, sem emoção alguma: “Não me vi.”

Houve um silêncio de poucos segundos, até que minha mãe partiu em seu socorro, a desacreditar o oráculo: “Papai, que besteira! O senhor não enxergou porque exagerou na bebida!”

Embora em pouco tempo a preocupação tivesse se dissipado diante de todos, afinal, a sanfona animava o terreiro, não deixei de perceber que vovô sondava o próprio íntimo durante toda a noite.

Acordei-me durante a madrugada. Fazia um frio imenso, de bater os dentes. Só se escutava o coaxar de sapos e o cri-cri dos grilos. Levantei-me agasalhado com uma manta. Percebi que a porta da frente estava aberta. Rumei até a entrada da casa. De lá, vi vovô ao pé dos restos de fogueira, remexendo com um pedaço de pau os tições anêmicos. Cheguei perto: “O senhor está acordado sozinho até essa hora?” Ele pediu-me que me concentrasse na música que o vento fazia quando tocava umas palmeiras de que ele muito gostava. Mostrou-me a Estrela d´Alva no céu, piscando como um diamante multicolorido. Disse-me que a vida é muito boa, só não se pode é perder a esperança.

Ficamos nós dois, velando a madrugada, aproveitando o calor da fogueira que ia se esfacelando aos poucos, espalhando-se em cinza pelo vento frio que vinha do Sul. Os galos despertavam o sol de mansinho...

Fiquei com essa frase de vovô até hoje na memória: “A vida é muito boa, só não se pode é perder a esperança.”

Vovô faleceu em 18 de Junho do ano seguinte, dias antes da noite de São João.

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia, 18 de Junho de 2011.

P.S.: Para vovô Milagres, que há muito tempo deixou de me aparecer em sonhos, mas é uma lembrança recorrente de saudades felizes.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Devaneio tropical em Paris


Aquele a caminhar timidamente entre os cafés da Rue Du Champs é Antônio. Ele prefere dias como este, de neblina fina a tornar cinzenta a atmosfera parisiense. Em dias assim, consegue ser mais imperceptível debaixo do impermeável oleado e sob o chapéu panamá. Ele lembra uma estampa conhecida do poeta português Fernando Pessoa.

Senta-se sozinho a uma dessas mesinhas discretas. Acende um cigarro e pede um expresso grande. Há casais apaixonados na festa de Paris, enquanto ele se amofina pelos cantos, a viver de inquietas suposições e desejos que não se corporificam do acaso.

Antônio procura uma novidade. Já perdeu seus vinte anos, já perdeu o magnetismo adolescente que lhe conferia o viço inovador. Poderia se embriagar de gozo entre beijos encomendados de uma trottoir, mas isso não inundaria sua sede, isso só desolaria mais ainda suas expectativas , pois nenhuma dessas pobres mulheres lhe dariam o gosto esquecido de coisas sublimes.

Recebera uma carta do Brasil. Nela, sua mãe conta de uma saudade inquietante, dando notícias de que as samambaias amarelaram e definharam pela falta dele.

Ele se concentra no amargo do café. Também sente saudades do Brasil, sente falta de tanta coisa... Pensa que na sua vida a sensação mais constante é sentir falta de emoções que não tocam mais sua alma com a mesma intensidade, com as mesmas nuances. Um coração uma vez habitado por um amor arrebatador jamais se acostumará à monotonia vazia de depois do fim.

Antônio gostaria de saber se se entregaria com o mesmo devotamento, se cegaria seus olhos e cairia nesse abismo apaixonado, sem se envergonhar em ser ridículo. O que ele faria com todas essas súplicas e carências exigidas por sua alma? Agradar à carne era fácil, mas sua alma era por demais exigente: não se contentava com uma rosa, queria uma primavera inteira.

Alguém lhe respondesse, por favor, se essa era uma inquietação mesquinha apenas dele, ou toda gente, em seus sonhos, está a suplicar por um amor que ilumine lacunas mudas de solidão.

Guardava para si esse melodrama, embora Piaf desfiasse no rádio o que ele um dia sentiu e desejou que fosse para sempre. Era a resposta à pergunta de outrora? Não era muito animador acreditar em destino.

Seu coração estava congelando naquele inverno parisiense.

No Brasil fazia calor. O Brasil era um lugar distante, era uma fotografia guardada na sua carteira, era um emaranhado de emoções que ele gostava de se embalar recordando. Talvez a saudade de lá fosse maior que as exigências de paixonites do seu coração. Talvez fosse tempo de retornar, talvez a vida fosse feita mesmo de compensações de emoções, numa equação em que a ausência de um amor tórrido devesse ser suprida pela saudade saciada do lar.

No Brasil, seu coração talvez volte a ser tropical.

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim/RO, 04 de Maio de 2011.

Para a amiga Rachel Alves Gomes, que de longe tem me irradiado energias felizes de libertação e recomeços.
Para meu amigo Danton, irmão de Rachel, que é um sol de alegria, mesmo por trás de qualquer nuvem cinza incômoda.


terça-feira, 29 de março de 2011

PAULO CORDEIRO SALDANHA - A AMAZÔNIA SOB SUA PENA

               “Maktub”. “Está escrito”. Oh, doce mistério esse de estar vivo! Quais oráculos irão desvendar os segredos dessa travessia nossa, desse pulsar de emoções da Existência?
               Nunca em meus planos esteve a imagem de poder morar na Amazônia brasileira e, no entanto, cá estou, na fronteira deste Brasil, cercado de rios e de uma biodiversidade que exalam o cheiro do barro cru há pouco moldado por Deus. É essa sensação de pequenez humana e de expansão espiritual que me inundam todo.
               Em derredor a essa profusão viva, enraízam-se histórias de homens e mulheres que aceitaram o desafio de participar dessa simbiose nem sempre tão harmônica com a selva e que nos legam enredos dignos de deixar invejosa a Sherazade, com assunto para mil e uma noites.
               Hoje, tive a graça de conhecer pessoalmente uma admirável personalidade deste Vale do Guaporé: o escritor guajaramirense Paulo Cordeiro Saldanha.

               Aqui, no estado de Rondônia, ele é um nome que dispensa apresentações, por vários outros atributos que lhe lauream. Mas, neste espaço, gostaria de prestar uma singela homenagem ao homem que dedica suas letras para enaltecer a merecida realeza de sua terra.
               O Jornal “O Mamoré”, periódico de vida perene nesta cidade, é um veículo importante para a integração social e até moral do município. Foi da leitura de “O Mamoré” que partiu minha admiração por Paulo Cordeiro Saldanha, responsável pela coluna “Crônicas Guajaramirenses”. 
               Detentor de um espírito saudosista, o escritor ali imprime reminiscências remotas, contando episódios corriqueiros e enaltecendo personagens que não podem padecer no baú do acomodado esquecimento.
               Maior foi meu deslumbramento ao me deparar, numa livraria, com um romance escrito por esse guaporense!
               O gênero romance é um texto extremamente difícil de se encarar; é um trabalho que, na sua maior parte, exige mais transpiração e paciência que inspiração. Poucas são as cidades a terem o orgulho de possuir um filho romancista. Pois bem, Guajará-Mirim o possui!
               Adquiri, então, O Oráculo da Candelária, última publicação do autor, e embrenhei-me pela leitura desse romance, cheio dessa cor-local amazônica, coroado pelo enigma íntimo a unir Nilton e Melina, personagens dessa trama universal, nascida no espaço europeu e ancorada na exótica Amazônia rondoniense, palco para mistérios cármicos esboçados por uma força sobre-humana, aos auspícios do Criador.

               Entre a troca de e-mails, tive a honra de ser convidado pelo escritor para um “café literário”, às margens do rio Pakáas Novos, que se estendeu por um almoço até a tarde toda, quando o tempo não foi desperdiçado por nenhum hiato de silêncio, haja vista a constante e agradável conversa que nos envolveu.

               O Sr. Paulo Saldanha, além de extremamente bem-humorado, é uma enciclopédia-viva desta porção de Brasil – não obstante seus conhecimentos universais. É um amante fervoroso de sua história, de sua família; é um devotado discípulo da literatura, pela qual se utiliza como instrumento para partilhar com todos de suas vivências e impressões de sua terra.
               Despido da vaidade que macula de pedantismo alguns intelectuais, o Sr. Paulo, este admirável “contador de histórias”, carrega a impressão verídica de uma alma generosa, que busca aquilatar a cultura municipal aparentemente (?) negligenciada pelos poderes públicos constituídos.
               Voltei para casa mais cheio de amor por esta terra que me acolheu tão bem e que a cada dia me põe no caminho a oportunidade de conhecer grandiosas pessoas. De lambujem, fui presenteado com o primeiro romance do autor, O Alferes e o Coronel, que traz como personagem principal  um conterrâneo cearense, de Canindé,  conhecido coronel da história de todo o Norte do País.

               Deus continue a lhe render essa abençoada inspiração, Sr. Paulo, e nos conceda o presente de poder desfrutar de suas histórias por muito tempo, ao sabor de sua prosa de deliciosa leitura. A cultura agradece!

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim/RO, 28 de março de 2011.

sábado, 26 de março de 2011

O outro lado do espelho


Era um ritual secreto que se iniciara na infância, quando contava dez, onze, doze anos de idade, talvez. Trancava-se no banheiro, subia e sentava-se na pia para mirar-se no espelho. Não sabia bem o motivo de fazê-lo escondida dos outros; certamente porque não teria uma desculpa para quem a surpreendesse diante daquele ritual inusitado.

Quando se observava, não procurava enxergar simplesmente o superficial. Era uma atitude para se reconhecer. Afirmava em som audível para si: “Eu sou eu. Meu nome é Alice.” Invadia-se por uma sensação indescritível de existir, de participar da vida. As respostas vinham como ondas de arrepios elétricos pelo seu corpo. “E por que ela nascera? E por que ali, filha daquelas pessoas, irmã dos seus irmãos?”, “Por que sua vida era assim?” Na maioria das vezes era retirada do transe por alguém que precisava usar o único banheiro da casa.

Quando estava sozinha, era bem melhor; podia continuar seu ritual no espelho do quarto dos pais. Era enorme, com grossa e antiquada moldura em madeira. Ali, além de se questionar, desafiava o próprio reflexo, não muito convencida de que a imagem refletida correspondia à realidade. Fugia da imagem central, depois voltava de vez para certificar-se de que se tudo acontecia tal qual ela gesticulava.

O tempo foi passando, e no fundo do espelho, sabia que podia contar com uma amiga secreta, nem sempre com a razão absoluta para todas as coisas, mas bem mais cheia de vigor e autoconfiança que a Alice do lado de fora.

Quando a tristeza era desoladora, e desembocava num rio de lágrimas, corria para frente do espelho e passava a escutar os conselhos que a outra lhe ditava. Geralmente aquela lhe ria da fraqueza, xingava o seu melodrama, seu medo de encarar as pessoas e as emoções que o mundo exigia que ela desfrutasse. De outras vezes, obrigava-a a esbofetear o rosto, como sinal de punição para sua fraqueza e covardia. Resolvia? Resolvia, sim. Só conseguia adormecer quando prontamente disciplinada pelo outro eu que habitava o vazio-cheio do espelho.

Quando se apaixonou por Beto, passou a viver um drama inconciliável com a Alice “de dentro”. Esta acusava-a de submissão cega, de falta de amor-próprio, de imbecilidade; tachava-a de ridícula até que, humilhada, resolveu esquecer o ritual. Era simples: bastava não se questionar diante do espelho, senão a outra, a intrometida, procurava instituir um império de razões e desaforos.

Eis que veio o fim do namoro. Beto estava cansado, não queria mais se sentir preso a ela, também era melhor ela não querer saber os porquês, acabaria se magoando ainda mais...

 Voltou para casa sem alma. No quarto, acendeu a luz. Diante do espelho, teve dez segundos para sentir pena de si mesma, até que a outra reapareceu, também com os contornos sérios, como se jogasse no âmago os argumentos que comprovassem a falibilidade da Alice “de fora”: “Você precisa morrer!” 
 
Ajoelhada, convencida de que a outra tinha razão, chorava como uma condenada a expiar uma pena que não merecia. Chegou mais perto do espelho e ali, tocando a superfície gelada do vidro, sentiu-se transportada para o interior daquele espaço, onde tudo era inquietantemente surdo. Sentiu uma inédita aflição, enquanto a outra, antes “de dentro”,  ameaçava-a com um sorriso de vingança. 

Agora livre, dirigiu-se até a janela do "seu" apartamento. Que sede de liberdade! Respirou fundo. Constatou que do quinto andar até o solo era uma altura considerável. Retornou ao espelho. Retirou-o com pressa da parede e volveu ao vento frio da madrugada. Como percebesse não haver transeuntes àquela hora da noite, lançou-o com vigor até o centro do asfalto. Lá embaixo, espatifada em cacos, jazia uma Alice que nem merecia ser lembrança.

Hérlon Fernandes Gomes
21 de março de 2011
Guajará-Mirim-RO

sábado, 19 de março de 2011

"O CABARÉ DE VIDRO" de Sérgio Darwich

       
         Quando cheguei ao Norte do país, há quase um ano, mais especificamente à pacata cidade de Guajará-Mirim – Rondônia, imbuí-me de interar-me acerca da cultura desta terra, notadamente sobre as áreas que me apetecem.
         Tive a sorte de poder comungar, no meu ambiente de trabalho, de mentes brilhantes, das mais cultas e agradáveis. Eis que, na faina cotidiana, nos intervalos entre uma audiência e outra, discutíamos sobre música, literatura, cinema, política...  lanço, ali, na prosa, a minha curiosidade sobre conhecer a obra O Cabaré de Vidro, escrito pelo falecido pai de um dos interlocutores. Um pouco surpreso com minha investida naquele momento, dias depois, o referenciado, Bruno Sérgio de Menezes Darwich, surpreende-me com um exemplar dedicado daquela obra, com os seguintes dizeres do imortal Cervantes, que bem poderia ter epigrafado o livro no original: “Se o poeta fosse casto em seus costumes, seus versos também o seriam. A pena é a língua da alma: como forem os conceitos que nela se conceberem, assim serão seus escritos”. (Dom Quixote, Parte Segunda, Cap. XVI)
         Começo por dizer que li o livro de uma sentada e passei o dia inteiro tomado pelas sensações que ele me despertou.
         Sérgio Darwich é um nome estranho na fama das letras nacionais, como tantos talentosos poetas o são. Não obstante sua impopularidade, os poemas deste autor tiveram a força elevada de me marcarem como o fizeram Drummond, Cecília Meirelles, Neruda, Florbela Espanca, Murilo Mendes e tantos outros imortais conhecidos de todos nós.
         Se a valorização da cultura anda capenga em todo o País, aqui em Rondônia, esta jovem unidade da federação, não é diferente: agora que ocorre um processo inicial de despertar da arte aqui produzida. Depois de ler a obra, senti-me instado a prestar uma homenagem ao poeta e dividir com os leitores do meu blog da pungente mágica poética ali presente.
         Publicado no ano 2000, O Cabaré de Vidro é uma coletânea de poemas escritos entre épocas variadas da vida de Sérgio Leonardo Darwich. Nascido em 1947, em Belém-PA, o poeta, de ascendência libanesa, radicou-se no Estado de Rondônia, onde desenvolveu fecunda carreira de advogado. Falecido em 2005, além de ter escrito a coletânea “Poemas Vagabundos”, em parceria com Sérgio Mendonça e Ivana Aguiar, o escritor triunfa o legado maduro de sua escrita no singular O Cabaré de Vidro.
         Como se infere pelo título, o autor explora a zona mais recôndita do íntimo que, no entanto, expõe sem nenhum pudor, instigando mistérios, já que sua unidade de medida é o sem-limite do sentir, é o despudor de estar vivo e constatar que não guardamos segredos de nós mesmos.


“A VIDA,
ESSA IDEIA FIXA,
ESSE TUDO OU NADA,
ESSE AGOZ DA MORTE
APRISIONADA”
(pág. 16)

“Minha boca
Suga exasperadamente
Os seios da solidão.
Minhas mãos,
Lúbricas,
Tateiam o sexo da noite.
- Os gonzos da angústia
Rangem no silêncio.
O pássaro do desespero
Pousa muitas vezes,
Na urgência do teto
Que me abriga a cada instante.”
(pág. 28)


         O livro é um palco onde se perfilam as emoções mais vivas, regadas a sangue, suor, sêmen, saliva e lágrima. O espectador perceberá que existe uma porção de ser-humano guardada intacta no decorrer das gerações, porque os sentimentos da carne e da alma conservam uma alquimia secreta que nos será peculiar ad eternum.


“Sou um homem sem data,
Sou todo ausência.
Tudo em mim
É notícia antiga,
Manifesto inacabado,
Ato de ser até quando.
Não tenho propostas,
Minha vida ruma sem rumo.
Sou um homem sem data.
- Na estrada dos dias
O tempo corre mais veloz.
Sou um navio quebrado no estaleiro da dúvida.”
(pág. 24)

“Fatigado de mim,
Certas horas,
Me fujo,
Me perco,
Me escondo
Num lugar qualquer
Da minha ausência.
Em seguida
Me desespero.
Me procuro pelos
Atalhos da memória,
Até me achar.
Então me mato
E me dispo
E durmo sossegado.”
(pág. 44)

“Cruzávamos o portal da noite
Ao encontro do amanhecer
Montando cavalos de sono.
Chegávamos rápidos
E desmontávamos
Com nossos gestos breves.
Despíamo-nos lentamente
Sobre a relva da manhã.
Em seguida,
Tocávamos e beijávamos
Nossos corpos nus,
Como convém aos amantes,
Despidos de passados e pudores.
Tudo se passava
Num ritual discreto e descontraído.
Gozávamos profundamente,
Tanto tempo,
Tantas vezes,
Até que adormecíamos sobre a relva.
O sol anunciava sua partida.
Então,
Despertos,
Montávamos cavalos de sono,
Cruzávamos o portal da noite
E voltávamos outras vezes
Para acordar o dia.
(pág. 50)


         As metáforas surrealistas de Darwich tocam compassadamente a essência de uma sinfonia concertada com a alma.


“A mulher de passos tristes
E gestos indefinidos,
Segue o rumo de seus olhos claros.

Na curva de seus passos
Há uma porta de inconstância
E sonho.
- Moderna arquitetura do passado.

No rumo de seus caminhos,
O tempo é uma viúva disfarçada
De prudências e escombros.

No mundo luminoso do seu ser,
Repousam antigas mãos de pássaros
E atitudes incompletas.”
(pág. 54)

“Sol me fustiga
O rosto
Pela fresta da manhã.
Enérgico,
Me desperta,
Me traz a memória na bandeja.
Sonolento,
Fastidioso,
Me levanto,
Me comprovo,
Me providencio.
De pronto,
Mais uma vez estou pronto:
Distinto,
Discreto,
Preparado.
Enfim,
Rigorosamente trajado
Com a farsa que eu sou,
Apto a sair,
Por aí,
Impunemente.”
(pág. 42)

         É, sem dúvida, um livro corajoso, em que o poeta se enfrenta nu, diante do espelho e questiona a emoção indefinível de viver; expõe a irreprimível necessidade de quedar-se aos desejos levianos do coração; entrega-se à preguiça morna da luxúria necessária.


“Onde anda o amor recomeçado
Na dádiva do sonho a cada vez?
Onde anda o amor inacabado
Na consistência da morte toda vez?
Minhas mãos cheias de pânico
Soluçam por carícias provisórias.
Bendita seja a paixão desesperada,
Limite preciso entre a vida e a morte.
Oh amor profano!
Um manto de inocência
Se estenderá sobre teu corpo.
A mim me resta um desprezo espontâneo.
Meus lábios incendeiam em beijos solitários.
Meus versos dão notícia do teu fim.”
(pág. 58)


“Uma nuvem de silêncio espessa
Envolve delicadamente a noite.


No Cabaré de Vidro,
Dançarinas de cristal se despem
Em ritmo musical lancinante.


Refletidas nos espelhos
Imagens em cores imaginadas
Traduzem profecias passageiras.


Discretamente,
Um jovem casal ardente
Roga por carícias esquecidas.


Uma prostituta sensual
Ergue um brinde para todos
Em pleno salão central.


Entre os presentes,
Futuros vestígios,
Derradeiros presságios.


No mar em frente,
Marinheiros de fumaça
Se dispersam em navios perdidos.


No rio atrás,
Uma profunda cicatriz
No rosto das águas.”
(pág. 66)


         Entre um trago de uísque e um charuto, ele debate as mazelas sociais, põe o dedo na ferida da ignomínia humana para, ao final, fatigado de si, debruçar-se sobre o rio, onde seu reflexo é um álbum de emoções escolhidas que ensinam o poeta a enganar a morte.


“Cumpra-se a lei
A mando do rei.

Ele falou,
Não devia falar:
É crime de pensamento,
Não há como negar.

A lei permite o pensamento,
Que ela não deixa expressar,
Já era quase possível,
Pensar sem poder falar.

Ele falou...
Cumpra-se a lei,
Chicote do rei.”
(pág. 10)

“Desponta
Essa manhã em cinzas,
Apontando ruínas recortadas.
Descuidadas,
Deusas de cristal e vidro,
Discutem em silêncio
Seus mistérios mais profundos.
O rio,
Contudo,
Indica as mesmas coisas:
Água, morte, substância.
A ribanceira tece seus segredos
Em fibras de amor desperdiçado.
É música volátil,
É pássaro sem pouso,
O rio.
Dentro do barco,
O tédio vaga seus acordes.
O sonho é brisa passageira.
O rio segue o trajeto de seu talhe,
O rio não tem malícia de seus males.
Tudo se confunde.
- Sombras de coisas e acontecimentos.
E o canto existe, mas repousa,
Numa canção que em barro se dispersa.”
(pág. 68)

“NINGUÉM PERCEBE
QUE MORTO
VOU DESLIZANDO
PARA NASCER
DAQUI A POUCO
NA OUTRA MARGEM DO RIO”
(pág. 69)

         Sem dúvida, a leitura de O Cabaré de Vidro não pode se resumir ao seleto grupo que teve acesso a primeira e única edição da obra. Esta antologia crítica, além de servir de homenagem ao poeta Sérgio Leonardo Darwich, e de partilhar com outros leitores de alguns dos poemas ali escritos, é um protesto para que se valorizem mais a cultura e a literatura no estado de Rondônia.
         Oxalá o progresso cultural deste lugar acompanhe o desenfreado crescimento industrial!


Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim – Rondônia, 13 de março de 2011.


P.S.: Dedico esta postagem, em especial, ao filho do poeta homenageado, Bruno Sérgio de Menezes Darwich, uma das mentes mais cultas que já conheci e um ser humano admirável, notadamente por sua competência e humildade.



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SAMBA DE UMA NOTA SÓ


Por ora, eu queria vencer o sono da madugada e poder encontrar na claridade esse objeto obscuro, que pode estar bem óbvio diante de nós e, no entanto, carrega o mimetismo do camaleão.

Queria deitar-me sobre a cama e sentir o sereno frio da noite pousar-me a pele nua para depois, sorrateiramente, arrepiar-me coberto por beijos quentes e encantar-me dessa preguiça louca de depois do amor.

Depois de tanto sonhos, de tantas vontades, concluo que deveria domar essas minhas inquietações, acostumar-me à deriva misteriosa desse barco e esperar, esperar, esperar...
Esperar que os segundos tragam um novo verniz, um novo aconchego, um riso mais perene; porque, afinal, estamos sempre na expectativa pelo inédido, por emoções que nos contem outras nuances e não façam a vida parecer um samba de uma nota só.

Hérlon Fernandes Gomes

Brejo Santo - CE, 27 de outubro de 2010.

(Dias em casa, consumindo a saudade do meu Cariri.)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

INSATISFAÇÃO


INSATISFAÇÃO

Meu lamento tem a cor da saudade,

O batuque oco da ausência,

O gosto insosso de um vazio  de convento.

O sono tenta fazer-me esquecer dessas necessidades da alma,

Tenta aliviar o que nenhum sonho compensaria...

Quando o dia amanhece, a luz do sol me extasia,

Embora não me garanta o conforto inédito pelo qual almejo,

Não me espante as aranhas que me enchem de teias de abandono...

Deus me tem feito esperar no Seu enigmático silêncio,

De estradas longas por destinos adiados de promessas valiosas.

***

Vou em frente:

Gostando da sede que se evapora na chuva surpresa,

Encantado de aromas inebriantes como os das flores de camará,

Adormecendo ao som da cachoeira que me revigora no arrebatamento de cansaço...

Há um arco-íris a deslumbrar-me.

(Onde está o pote de ouro?)


Hérlon Fernandes Gomes


12 de dezembro de 2010. (Madrugada)

Guajará-Mirim, Rondônia.


P.S.: Este poema saiu depois de imenso tempo sem saber sobre o que escrever... Estou voltando ao Ceará passar uns dias. Espero que a alma do Cariri me renda uma perene inspiração. Saudades de retornar aqui.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

TRISTESSE – MELANCOLIE – PALE BLUE EYES

Teus olhos azuis me servem de mote nesta madrugada desacompanhada. Não se trata de um drama barato. Nada soa como um bolero condoído de amor. A sensação de agora me inunda como o oceano insondável dos teus olhos claros costumava me saciar, a me dizerem, a me decifrarem segredos que nenhuma língua atribuiria uma comunicação similar. Permaneço em transe perante somente a lembrança deles, desterrados numa canção, no acaso de um bar, num lugar distante... Embora essa distância não seja nem de perto suficiente para afogar a recordação desses dois abismos que ainda me perseguem...

Fumei todos os cigarros que pude. Nenhum me deu o alívio da tua presença enigmática. Nenhum teve na brasa fugaz a luminosidade eterna dos teus faróis. Permaneci à deriva, angustiado, triste... Anônimo solitário.

Sim, são todos estranhos.

Não há mais a cumplicidade insondável do teu mistério; não há mais profundezas pelas quais eu me arrisque e ainda assim me sinta abrigado. Agora é só silêncio; agora é apenas desejo.; agora é essa sensação de fome insaciável.

No quarto escuro, meus olhos procuram tua luz.

***

“...linger on your pale blue eyes...”


Hérlon Fernandes Gomes, 29 de outubro de 2010.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

EU CANTO COMO O REI DAVI


Às vezes alguma angústia tenta me inundar os planos, com medos desconhecidos...

Meu Deus me guia nessa travessia nebulosa e me eleva pontes nos desfiladeiros. Quando me canso diante de montanhas intransponíveis, Ele me faz nascer asas e prepara fontes de água fresca para aplacarem minha sede. Se amarguro a saudade de casa, à noite ele me consola com sonhos sublimes, em que minha mãe me abraça com um sorriso santo e meu pai assobia para o sabiá na gaiola.

O meu Senhor me inspira hinos iguais aos do rei Davi, porque eu me envaideço por servi-Lo sem nunca me sentir um escravo; pois com Ele sou sempre nobre. Ele é a minha rocha por sobre onde edifico meus ideais. Se entrego meus planos a Ele, meu amanhã é certeza de promessas cumpridas – porque o Senhor Meu Deus é fiel.

Minha alma é um eterno amanhecer. Deus é essa luz perene a me guiar, a aniquilar qualquer treva covarde, a murchar a inveja mesquinha do irmão pobre de espírito. O Senhor é pastor diligente; recobra-me quando me desvio; dá-me o exato peso de cada lágrima derramada.

Meu Senhor é o Amor Maior. Ele ofereceu Seu único filho como cordeiro e permitiu que o Destino se cumprisse onde os homens não o reconhecessem como irmão. Nessa dor eu descubro Tua santidade, ó Pai. Nessa dor eu peço graças em nome do irmão Cristo Jesus para que me proteja com Suas bênçãos, para que salve a humanidade.

Amém.


Hérlon Fernandes Gomes


25 de outubro de 2010.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

EU, CARTOLA, AURORA E A PRIMAVERA ou UM ENSAIO SOBRE A ESPERANÇA


Acordei mais cedo do que o de costume. Cinco e meia da manhã. Aqui no Norte, o sol demora a nascer. Escuridão fechada, frio seco. Levantei-me para preparar um café que me ajudasse a manter o despertar. Olhos abertos de lunático, perscrutando o infinito íntimo... Eu e essa mania de me sondar infindavelmente... Faço uma oração secreta e poderosa que minha avó nonagenária me ensinou. Mensuro diariamente tanta saudade que me parece explodir a alma, a calma, o prumo das coisas. Ligo baixinho o som para não incomodar os vizinhos. Cartola canta Preciso me encontrar. Eu, diante da porta aberta do quintal, miro as estrelas vacilantes que ainda se aventuram em insistir na noite. Sinto nelas uma coisa que está em mim, que eu não saberia explicar com a linguagem verbal que aprendi... Elas se apagam; mas há certeza de que amanhã estejam a luzir ali, embora nem sempre as mire.



Decido sair. O sol agora perfila as nuvens com seus lilases de aurora. Essa paisagem é meramente coadjuvante, pois ainda continuo a me empreender nos meus pensamentos. Cartola continua nos meus ouvidos, como um dejá vu constante... Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar, rir pra não chorar... Não há desolação em mim. Há angústia de uma espera misteriosa que move meus dias; esse gosto pelo inusitado que nem sempre se configura mas ainda assim me enche diariamente de uma alegria sem peso, que aparentemente não é nada, e me inunda todo. Sim. Devo orar a Deus para que sempre me conceda Esperança. Porque do Nada eu construo um império inteiro de felicidades possíveis, mesmo que a eventual Desilusão do amanhã me ceife os caminhos percorridos. Sendo imaterial, a Esperança me devolverá do mesmo Nada os sonhos necessários ao prumo da felicidade.


Tenho me proibido entristecer, não obstante me surpreendam lágrimas tímidas que derramam o excesso dessa solidão escolhida... Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar... O sol já se anuncia Rei. Respondo para Cartola que voltarei sem me encontrar, porque imagino que a gente sempre esteja nessa procura faminta, de respostas insistentemente inexatas. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver...


Dobro a última esquina antes de refazer o percurso de casa. É meu caminho diário. Minha alma se pinta diante do ipê roxo florido que até ontem era um verde comum e imperceptível na paisagem. Meu sorriso se abre mais. Ele agora tem o peso do sol. Peço a Deus que eu também possa ser essa Primavera. Amém.


Ipê florido de Guajará Mirim - fotografia feita por mim



Hérlon Fernandes Gomes



Guajará Mirim, Rondônia, 17 de agosto de 2010.




P.S.: Para minha amiga Fernanda Ferreira Britto Rêgo, que tem compartilhado seu banzo comigo. Para você, com tudo o que há de mais sublime no universo.