domingo, 8 de janeiro de 2012

A última lua cheia


A ÚLTIMA LUA CHEIA

Ficou um silêncio tão grande deixado por tua ausência, que minha alma conseguiu ouvir as paredes balbuciarem uma oração de misericórdia a suplicar por teu retorno.

Ficou um frio tão grande nessa alcova, capaz de despertar espinhos na minha pele,

Por isso me cobri no calor do cigarro que odeias, mas aqui já não estavas para insultar meu beijo de nicotina.

Ficou um descampado tão grande neste quarto, que imprime à Nossa Senhora na parede uma maior compaixão por meu desterro.

Ficou um desvão tão grande no meu coração, que preciso me conter para não me evaporar nas lágrimas que se juntam na atmosfera quente desta última lua cheia de dezembro.

Hérlon Fernandes Gomes, Rondônia - 11 de Dezembro de 2011

P.S.: Para Alexsandra Meira Vasconcelos, que tem um coração que pulsa poesia.

Do inédito Lúmen - De corpo e alma - Poemas Profundos.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O Medo de Amar





Como te fazer entender que não crer no amor é como permanecer numa espécie de morte em vida?


O que fazer, então, de tudo o que restou de nós? De tudo o que aconteceu e permanece vivo nas nossas saudades, a chamar, como um pedido de socorro, um pelo outro?

Que nome se dará à vontade que sinto por ti, além do gozo, que me faz querer ficar abraçado a ti durante a noite inteira?

Que alquimia faz teu gosto ser agradável ao meu paladar a qualquer hora do dia ou da noite, no despertar e no adormecer?

Dizes que em breve enjoarei de tudo isso, como um brinquedo pelo qual se perde o  encanto e, por isso, assassinas quaisquer possibilidades de felicidade duradoura...

O que faremos então com esse desejo que nos chama? Qual nome terá ele? Chamarei de angústia, chamarei de saudade até quando não nos vermos; até quando não nos encontrarmos, porque sei que depois de cinco minutos diante dos teus olhos estaremos a repetir nosso ritual de entrega, como se teu corpo fosse meu corpo, já que teu prazer tem reflexos iluminados no meu coração.

Meu discurso não é fácil, não é falso... Tua pele sabe a verdade do que sinto; teu cansaço final conhece a poesia da minha atenção.

Tenho medo de que teu medo de amar assassine tua melhor parte, estraçalhe a pureza sublime que conheci no teu despertar sonolento, no teu abraço apertado que mudamente gritava para permanecermos unidos sem tempo.

Eu vou fingir que tudo foi um instantâneo de fotografia, como esse retratos Polaroid que a gente esquece dentro de um volume perdido de enciclopédia e, quando resgatado, tem o poder de rejuvenescer toda uma existência.

Vou fingir não saber o que sentimos e, por não saber que nome dar à torrente de felicidade desses dias que ainda me encanta, dar-lhe-ei teu nome.

Hérlon Fernandes Gomes

Guajará-Mirim, Rondônia, 07 de Janeiro de 2012.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Principado da Paixão





Eu quis repetir em ti um desejo vivido


E sei que em mim estacionou um momento de paz


Incabível no espaço limitado das horas permitidas,


Eternizado no código secreto das minhas lembranças.


Renunciei ao sono


Enquanto afagava tua pele arrepiada por meus carinhos.


E eu poderia ficar assim indefinidamente:


Monge dos teus beijos,


Mucama dedicada a velar por teu conforto,


Meu caro príncipe.


Mesmo se um dia eu for para ti esquecimento,


Em mim, no baú dos sentimentos de luz,


A saudade te reconstruirá completamente para mim,


Em cor, gosto, quentura, cheiro e silêncio.


***


Derramei nas cachoeiras do teu reino as alegrias que transbordaram do meu coração.




Hérlon Fernandes Gomes


Chapada dos Guimarães, Mato Grosso.


31 de Dezembro de 2011.


P.S.: Para você, a coisa mais doce dos últimos dez anos.


Cachoeira da Serra Azul, distrito de Bom Jardim, Nobres - MT.


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Instantâneo de Paz


Cafeína no sangue. Amargo e doce na língua. Sensação de vastidão em minha alma, de completude com a Graça da Existência de todas as coisas. Encho-me de planos bons, de esperanças que me consolam antecipadamente o futuro sempre incerto.

Meus pés estão fincados no tempo presente. Vivo cheio desses "agoras" determinantes. Meu coração calejou de sentir saudades e já bate no seu ritmo normal, mesmo quando Belchior canta "Meu cordial brasileiro" no som da sala.

Estou aprendendo a equilibrar-me entre a ingenuidade dos pombos e a esperteza das serpentes; a não ter medo do mundo, a me sentir íntimo das vastas estradas, de desconhecidos que me são tão gentis gratuitamente!

Ando tomado pela quentura viva de uma fé!... Quero encontrar a todo custo a essência mansa da felicidade e a cada dia sinto-a mais próxima: nos abraços que recebo, na simplicidade de emoções sublimes e inesperadas, no sorriso-ímã de quem eu desejo que seja o meu amor.

Meu sono está mais tranquilo. Meus sonhos têm mais sentido. Sinto Deus no Tempo. Tenho paz em mim.


Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia - Sem data.

domingo, 13 de novembro de 2011

Firme e reticente



O mar me ajuda a não ter medo da dimensão dos meus dilemas. À medida que percorro a praia vou desfiando minhas interrogações nas pegadas que deixo na areia, nos suspiros profundos que despejo pela maresia.

Eu pensei que tua lembrança fosse ficar latejando em mim como a dor de um espinho que, mesmo depois de retirado, fica a impressão de que ainda está cravado. Não. És mais uma gaveta no meu arquivo de lembranças organizadas, das quais me permito perder as chaves para que a tentação de vasculhar essas nuances não me visite.

Eu também pensei que tudo fosse ficar com gosto de drama, que eu não conseguiria abrir as cortinas do quarto por pelo menos uma semana; mas tua franqueza me ajudou a me olhar no espelho e realmente tens razão quando dizes que minha luz não pode se dedicar apenas a ti. Minha luz é realmente inalcançável para tua treva egoísta, para teu medo pueril acostumado somente ao corpóreo, ao palpável, ao imediato.

Não te culpo, não me culpo. Não te quero insultar, mesmo o fazendo. O que mereces de mim agora? Meu silêncio já seria alguma coisa. Mas deixo nessa areia um rastro de minha poesia incompreendida, meu discurso vão para quem só foi capaz de sentir a volúpia da minha pele; para quem não teve alma de enxergar um palmo além do óbvio.

O mar está calmo. A luz é agradável. Consolo-me pelo que sei que sou. O Tempo é sábio e dá a duração que cada existência merece.

Hérlon Fernandes Gomes
Floresta Amazônica - Brasil

13 de Novembro de 2011.


sábado, 5 de novembro de 2011

CORAÇÃO MAMBEMBE



Queria encontrar a chave que rompesse o teu silêncio, porque tua mudez é um enigma, não me diz quase nada pelas tuas atitudes. Eu leio o teu desejo quando me beijas, quando nos deitamos juntos; mas estou longe de conhecer a zona profunda da tua alma, das tuas intenções, onde deve estar o ancoradouro desejado.


Queria o conforto de algumas certezas, queria enxergar tua nudez verdadeira onde tuas emoções descansam puras. Eu também me pergunto se mereço transpor o limite que me permites; eu me questiono se realmente saberei honrar teus tesouros preciosos. Então eu suporto teu mistério; suporto enxergar pelas  frestas  míopes das armaduras que te vestiste contra os que mal te amaram.

Meu coração mambembe, surrado pela poeira das distâncias e pelos espinhos do passado, já não possui ferrolho nem tramelas nas portas, deixa que o viajante entre e vasculhe todos os cômodos, que enxergue a tinta das paredes, sinta a cumplicidade dos móveis... Meu coração mambembe deseja abrigar bem,  longe de vaidades dispensáveis; precisa de morador que se preocupe com as plantas que amarelecem no alpendre, que se deite na rede cativa estendida na varanda.

Não, meus segredos não te assustariam. Minhas desilusões talvez te fizessem chorar; mas elas já foram todas exorcizadas e tornaram mais fortes as paredes deste coração  que pretende ser tua casa. Para cada cicatriz eu também tenho um sorriso; nenhuma tristeza em minha vida foi maior  que qualquer felicidade encontrada.

Agora estamos nós dois, na tua cama. Aliso teus cabelos, sinto tua quentura, desfruto da maciez dos teus lábios... Atravessaríamos a noite assim, sem que me reveles o princípio dos teus anseios, sem que me digas o que realmente pensas ao meu respeito, embora me saiba agradável ao teu lado...

Não, eu não vou atropelar teus passos; não vou vilipendiar a constância do teu tempo. Meu coração mambembe, de terras ressequidas, sempre aprendeu a viver cheio de esperanças, mesmo quando o céu mais azul não prometia chuvas.

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia
05 de Novembro de 2011.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O ÚLTIMO DITADOR



General, para quê um coração se és todo razão?

Na tua estátua de aço fundido está a imagem de tua alma metálica,

Cheia de botões e brochuras de vaidade

Perfilada pelos que te temiam, não pelos que te admiravam.

Teus discursos só ecoaram no teu presente,

Porque o futuro  te renegou nos corações dos jovens,

Cheios do sangue vivo de liberdade.

General, teus joguetes foram planos precários

Como as placas das ruas que levam teu nome

Mas permaneceram conhecidas pelas alcunhas dadas pelo povo:

Rua da Luz, Beco da Esperança, Alameda dos Desvalidos...

Não percebias que a história contada por teus escribas era esclerosada

E que os seixos da estrada brilhariam para sempre as vozes lúcidas do passado?

General, a alma do homem é inalienável.

Podias convocar teu exército de mercenários,

Exigir verdades inventadas;

Podias chamar de bem a ignomínia que realizavas;

Mas não tiveste o poder de despertar a primavera!

Amaldiçoado estás pela cegueira eterna

De onde só enxergavas o vil metal.

Condenado estás a não sentir

Pois incapaz foste de acalentar-te pelo amor de um filho.

***

General, já nem lembram teu nome

 - Tua placa fora arrancada!

Estás ao relento, sob sol e chuva,

À mercê dos pombos, que não respeitam tua patente.


Hérlon Fernandes Gomes

Guajará-Mirim, Rondônia, 22 de Setembro de 2011 - Madrugada.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A felicidade breve é também felicidade



O que eu tinha feito com aquele desejo guardado e empoeirado? Percebi que ele não estava tão escamoteado ou irrecuperável quando bati os olhos novamente em ti.

O tempo nos uniu novamente sem que para isso precisássemos de esforços. Agora, nada poderia criar barreiras entre esses desejos impublicáveis do passado. Teu coração já não tinha mais dono. Éramos agora nós, um diante do outro, com tão pouco tempo para compensar esse passado de hibernação.

E foi tanto medo de que essa ânsia só me pertencesse. Enfrentei os teus olhos porque já não éramos ilegais. Agora era tão bom não ter de fugir deles; era tão bom sondar teus pensamentos, imaginá-los como pares dos meus desejos.

A noite foi longa até restarmos apenas nós dois e a manhã batizando o nosso primeiro beijo. Fecho os olhos por alguns segundos para poder captar esse momento: meus dedos entre teus cabelos, o gosto bom da tua boca, os nossos desejos nos queimando...

Lulu Santos nos mandava “nos permitir” e assentíamos para essa oportunidade que se nos oferecia. E, calmo, olhava para ti, simplesmente por olhar para compartilhar meu sorriso mais verdadeiro ao teu lado.

Na cama, nem imaginava que éramos tão íntimos, que conhecerias tão bem os caminhos do meu tesão absoluto, que te entregarias a mim como alguém que eu conhecesse os mistérios mais sublimes de comunhão.

E vimos estrelas. E conversamos. E não veio o sono.

Foram três dias de saciedade de uma sede enorme. Eu bem queria poder te beber todos os dias... Mas respeito o encanto da Cinderela e aceito voltar para o borralho, onde eternidade é apenas essa saudade palpável que sinto de nós dois, ao brinde de vinho, beijos,  Maria Bethânia e nossos corpos elaborando a alquimia da paixão.

Volto para casa feliz. Nada de desilusão, nada de desalento, nada de esperanças que me façam sofrer. Foi desejo liberto o que vivemos. Eu me banhei de luz em ti, eu me senti vivo nos teus braços, na hipnose maciça dos teus olhos castanhos.

Culpa? A culpa maior seria ter rejeitado essa oportunidade que a Vida nos pôs de bandeja. Escrevo isso para eternizar, para que o futuro mais na frente não queira me enganar e dizer que tudo não passou de um sonho.

A felicidade breve é também felicidade. Ela não perde a plenitude quando nos assoma como a rapidez de uma estrela cadente.

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia, 05 de Setembro de 2011.

P.S.: Entrei Setembro no Cariri contaminado de primavera.



terça-feira, 23 de agosto de 2011

A PAIXÃO E A RAZÃO




A RAZÃO pousou-me no ombro esquerdo; a PAIXÃO acostou-se no outro. A primeira me prometeu a tranquilidade de uma passagem monótona, sem sensações inesquecíveis, mas itinerário certo; a segunda, embora me traçasse labirintos e abismos de perigos e incertezas, sem placas e marcos que indicassem uma direção de Norte, fez-me sentir invadido por um formigamento luminoso de emoções e gozos de Vida. A quem dou ouvidos?

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia, 23 de Agosto de 2011.

P.S.: O eterno drama inconciliável... Como servir bem a essas duas Senhoras?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O BÚZIO



O BÚZIO


Estou a desenhar na praia minhas alegrias presentes,


Estou a adivinhar no horizonte um futuro de paz.


No naufrágio não afoguei minhas esperanças,


Embora confundisse o sal da minha lágrima no do infinito oceano.


Daquelas profundezas  ficaram lembranças quase esquecidas,


Desbotadas pelo calor do sol,


Encantadas pela luz de refrações enluaradas.


Sou eu agora ao acaso,


Nessa imensidão de enseada,


Ansioso por ser  escolhido


Por um olhar especial


Que me aceite singular


E me tenha por amuleto da sorte.




Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia - 28 de Julho de 2011.


P.S: Para meus irmãos: Hércules, Helaine e Heloísa. Na infância, maravilhados com a quantidade de búzios gratuitos pela praia, perdemo-nos dos nossos pais, quando escolhíamos e catávamos conchas por quilômetros distraídos.

domingo, 24 de julho de 2011

EPITÁFIO A AMY WINEHOUSE (A ÚLTIMA CANÇÃO)

 

EPITÁFIO A AMY WINEHOUSE (A última canção)


Dirão dos meus excessos:
Do amor sem limites
- Maior que a mim mesma;
Do inconsequente coração
A ser fiel só a si...
Dirão de mim nos bares das madrugadas,
Num copo de uísque,
Numa desilusão sem amparo,
Num luto d’alma...
Mijarão sobre as flores do meu túmulo,
Vilipendiarão meus ossos e venderão aos hippies,
Dirão mais mentiras que verdades ao meu respeito;
Mas das minhas verdadeiras dores só eu as soube:
Distribuídas como caprichos vagabundos de um coração-kamikaze.
Não me reverenciem,
Não me sigam...
Precisei  de todos para dar vazão às minhas dores,
Precisei publicar-me porque não me continha.
Agora o luto só me pertence,
Só a mim ele é definitivo.



EPITAPH – AMY WINEHOUSE (The last song)


They will say of my excess:
Of love without limits
- Greater than myself;
They will say of the reckless heart
Loyal only to
 itself ...
They will say of me among late nights on bars,
In a glass of whiskey,
In a disappointment without support,
In a black of soul ...
They will piss on the flowers of my grave,
Steal my bones and sell them to the hippies.
They  will tell more lies than truths about me;
But of my true pain, just I
 would know:
Distributed as vagabonds vagaries from a kamikaze-heart.
Do not idolize me,
Do not follow me ...
I needed everybody  to vent my pain,
I had to publish me because I was not contained me.
Now, the black  just belongs to me,

Just to me it´s final.

Hérlon Fernandes Gomes
Guajará-Mirim, Rondônia - Brasil
23 de julho de 2011.

P.S.: Amy Winehouse foi uma poetisa contemporânea ultrarromântica, do quilate de Florbela Espanca, Arthur Rimbaud, Kurt Cobain, Jim Morrisson, Janis Joplin, Cazuza, Renato Russo... e tantos outros que amaram o amor mais que a si mesmos. Salve Amy para sempre! Forgive me for any errors in translation to english. It´s  writed originally in portuguese.





sábado, 16 de julho de 2011

Intimidade com o silêncio


Em meu silêncio, meu íntimo cantarola a melodia de um fado desconhecido e reaviva emoções tão minhas, esquecidas no rastro de uma distância continental onde elas nasceram. Respiro fundo, como impulso para que a vida me responda que está instalada em mim, para que me lembre o pulsar do meu coração, cheio do peso abstrato dessas lembranças felizes.

Olho o calendário, conto os dias... Essa fraqueza de querer voltar para casa, como se ainda não estivesse pronto a sair do ninho, mesmo com asas tão fortes...

Quando nos sentiremos efetivamente prontos para a vida? Quando, o que temos, o que somos dará a sensação de que já  é o bastante?

Tenho sedes intermináveis: do amor inconcreto e raro; da compreensão mútua dos homens. Fecho os olhos e me tenho diante do mar. Pelo horizonte, entrego meus anseios ao sabor das ondas, como mensagens em garrafas a itinerários desconhecidos, onde o portador me compreenda e talvez me resgate dessa ilha de mim que me mantém.

Neste sábado silencioso, quando a solidão se torna minha fortaleza, miro o céu, na sua profundidade mais azul de dia, e Deus me responde que nessa distância insondável não existem apenas planetas e estrelas, que minhas orações não desembocam num buraco negro do acaso.

Hérlon Fernandes Gomes

Guajrará-Mirim, Rondônia 

16 de Julho de 2011.

P.S.: Fotografia de contemplação do mar cearense.