sexta-feira, 7 de maio de 2010

POEMA A MANUEL BANDEIRA


POEMA A MANUEL BANDEIRA



Queria ser o doce


No fim do fel que se dissolve


Na ponta da minha língua,


No fim do nosso beijo.


A música aos poucos me devolve a calma


E eu passo a sonhar...


Como antigamente.


A saudade sempre me consola


E dela eu extraio lembranças boas


— O combustível necessário para seguir em frente.


Procuro a felicidade pelos cantos:


Às vezes, uma pálida luz que se esconde;


Noutras, um perfume adocicado a fugir


Entre becos, nos cajueiros virgens da praia.


Espero o sono.


Ele me traz sonhos encomendados


Em que sou amigo do rei


E amante de qualquer mulher,


Na cama que escolherei.


Hérlon Fernandes Gomes


 
(Do inédito LÚMEN, ou DE CORPO E ALMA, Poemas Profundos)

domingo, 18 de abril de 2010

Crônica de saudades


De repente um nó engasgador na garganta. Uma angústia que é fruto de muito amor deixado longe. Acho que agora posso sentir um pouco do significado do banzo, que matou tantos escravos de saudades - arrancados à força de sua terra natal. Comigo a realidade não é triste, é outra; mas a saudade que sinto de casa não deixa de doer, não deixa de incomodar; embora ela também seja combustível para que eu edifique as promessas que me reservei, seja a intensidade da luz que tenho pedido a Deus para me servir de farol.
Em minha casa eu conheço a direção dos ventos e sei identificar facilmente o Norte e o Sul. Em minha casa existe a cumplicidade muda de todos os cômodos, o reconhecimento de todos os cheiros e gostos: desde o café da manhã até o cheiro verde do jardim regado. Guardo em minha mente um álbum de retratos vivos, em que meu pai joga cartas todas as noites, minha mãe embainha minhas calças na máquina de costura e eu converso com meus irmãos no alpendre... Essas coisas são o que me fazem ser pessoa e me dão significado e significância perante a Existência; são essas coisas que eu tenho como mais primitivas e puras.
Aqui, eu me sinto como uma árvore grande, arrancada de uma terra distante, que precisa de tempo para que suas raízes se acostumem ao novo solo. Minhas folhas estão amarelecidas de saudade; mas meus frutos futuros terão o gosto desse lugar que me viu crescer; minha seiva será iluminada pelos sonhos do sopé do Cariri, pelo afeto que está guardado e vivo nesse lugar que é meu lar perpétuo.

Hérlon Fernandes Gomes

P.S.: Para meus familiares e amigos que estão distantes apenas geograficamente.

terça-feira, 16 de março de 2010

Expressão do inexprimível


Dizer que gostei do teu gosto é pouco... Dizer que gostaria de me demorar mais sobre teu peito poderia soar como uma receita pronta e barata de um falso conquistador... Então eu calei e esperei que esse meu silêncio fosse capaz de dizer bem mais da minha verdade, das coisas que não preciso elaborar para dizer, porque estão prontas e se manifestam no entrelaçamento de nós dois.
Não, eu não te peço que me decifres. Quero que me sintas. E que as sensações captadas por tua alma deixem teu dia mais feliz, roubem-te um sorriso à toa em qualquer momento da tua rotina cotidiana. Não, não tenho a pretensão de ser perpétuo na vida de ninguém, porque até mesmo o amor perpétuo tem um quê de prisão. Quero amar a liberdade de te querer e não ser dono de verdades absolutas em relação a nós dois. Nós precisamos de razão para nos amar? 
Não quero falar de medos, nem gosto de pensar neles... Tenho esquecido das coisas ruins que possam nos desolar, nos afastar. Estou mais paciente ultimamente, de tal maneira que dificilmente qualquer ganho ou perda será capaz de causar grandes mudanças no meu coração. Já amamos demais... Já sofremos demais... Sei que nossas cicatrizes não podem nem devem servir de desculpas para a entrega de uma tentativa de felicidade.
É, talvez eu tenha muito a dizer ou talvez precise escutar muito mais... Tens o gosto do incrível e da surpresa em tua essência. Isso me deixa desarmado e ao mesmo tempo livre para passear por esse desconhecido caminho de alegrias. Preciso esperar mais de nós? Eu espero. Mas tenho deixado que essa esperança ganhe a vitalidade da renovação das manhãs ou se espalhe pelo mundo dizendo que em algum momento dois olhares foram capazes de se embriagar de um desejo sublime e feliz.
Agora, o que me importa verdadeiramente é a saudade dos nossos beijos e como me sinto bestificadamente feliz simplesmente porque sei que tu vives.

Hérlon Fernandes Gomes
Brejo Santo - CE
16 de março de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CÂNTICO DE LOUVOR À ESPERANÇA




CÂNTICO DE LOUVOR À ESPERANÇA


Esperança, eu te deixo que me abrace e me embale,

Eu te deixo que me cante tua canção de ninar

E me encha de sonhos felizes.

Esperança, eu vou adormecer nos teus braços

E me encher das promessas que tua presença encerra.

Deus se compadecerá dos meus delírios pueris

E não me negará a doçura dos meus desejos,

Porque eu sacramento minha vida diante da Luz,

Meu banho nesta nascente é um batismo de pureza.

Esperança, eu te peço que me habite sempre,

Seja o verniz da minha alma

Para que eu entoe cânticos de felicidade em teu nome,

Porque, sem ti, o Espírito agoniza em coma.

***
Esperança, eu te deixo que me abrace e me embale,

Eu te deixo que me cante tua canção de ninar

E me encha de sonhos felizes.

Sempre.


Hérlon Fernandes Gomes

08 de fevereiro de 2010


P.S.: Para minha amiga Marineusa Santana, dedico este poema de Luz. Que a Esperança, que é irmã gêmea da Fé, esteja sempre ao seu lado! 

P.S.2: Infelizmente não sei quem é o autor de tão bela gravura. Gostaria de creditar o nome do seu criador. Quem souber, por favor, faça-o nos comentários.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A VIAGEM




A VIAGEM




Os marmeleiros exalam seu perfume verde pelo Ar,

Há uma brisa a esfriar de conforto minha alma,

O Universo é todo o céu que se me emoldura.




Quem suspenderá os astros para que o Céu não caia?

Quem comandará a engenharia do Tempo para que Ele nunca se atrase?

O Inverno estende seu véu de noiva - colorido de Esperança.




Quem terá a aquarela do céu, nos azuis do Dia e da Noite?

Quem ordenará à Lua para que inicie seu reinado?

As volúpias parecem ser mais ardentes cobertas de luar...




Quem despertará a Terra para que nasça em flores?

Onde morará o perfumista da Primavera?

A vida deve ser guiada pelo Sonho, pelo Amor, pela Paz...




Quem ainda terá os olhos da Alma?

Quem ainda verá o Sagrado nas coisas mais simples?

O Crepúsculo é um diamante do Mar de Deus a luzir sem vaidade...




Hérlon Fernandes Gomes

04 de fevereiro de 2010




P.S.: Para quem possui os Olhos da Alma.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

MINICONTO APAIXONADO





          Talvez fosse tempo mesmo para ele se encantar novamente – em tempos atrás talvez chamasse isso de se iludir.
          Agora ele sentia que era tempo para se entregar à deriva de uma paixão que fosse a cor dos seus dias. Cansou de se bastar (alguém se basta?); cansou de acreditar que conseguia reger a intensidade dos próprios sentimentos como a uma orquestra. Precisava voltar a sentir saudades, a ser também essa ânsia para alguém.
          Ele lembrava de toda a calmaria que o enchia todo dessa alegria esquecida."É meio como andar de bicicleta”, pensou. Era tão bom esquecer as horas de tédio com a plenitude da presença dela... Passou a sentir vontades adormecidas depois que suas salivas se misturaram. O tempo havia se calado naquela hora. E ainda assim, calados, quanto disseram de si mesmos, quanto se tornaram cúmplices nos desejos?
          Não havia palavras nem conceitos que pudessem ser falados ou escritos, porque poderiam soar ridicularmente. Mas acontecia nele um fenômeno que só podia ser um sinal: seu suor exalava a mesma fragrância do cheiro dela, numa perseguição onde ele era o próprio rastro.
          A cama estava mais fria com apenas um corpo nu. Demorou-se com a insônia, perpetuando na imaginação os beijos de agora há pouco — lembranças tão vivas e mornas. 
          Sentia-se mais vivo, sentia-se iluminado.

Hérlon Fernandes Gomes
Madrugada de 28 de janeiro de 2010. 

Fotografia do filme ASAS DO DESEJO (Der Himmel ünder Berlin), de Win Wenders, um clássico do cinema, de 1987.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PEREGRINA CANSADA



Estava tão cansada para pensar nessas sensações... O sono lhe pesava nas pálpebras, mas ela permaneceria insone pela ausência daquele homem sem nome e rosto. Ele agora era apenas esse pensamento desejado, essa procura que ela se esforçava por empreender, embora já se sentisse sem forças.
Ela queria rasgar esse amofinamento que pesava em toda sua superfície, queria se embriagar de luz, mas seus passos se automatizavam para esse recolhimento de monotonia. Nem se reconhecia mais... Perdia a fé? Perder a fé é o mesmo que perder a esperança... O que seria dela então? Por que não se acostumar com o que já possuía? Por que outros perfumes não mais lhe seduziam? Estava cansada de insistir nessa mesma fragrância. Continuava a ouvir as mesmas canções – “só durante este outono” - , como uma prece desiludida...
Lembrou-se de um tempo em que os sonhos fracassados não a desolavam tanto. Já não era mais infância. Agora estava tão só... Tão só e reticente, porque não conseguia ter o freio para a correria inconsequente do coração. “Meu Deus, me castre essas emoções que não se plenificam...”. Isso soava como uma batida fúnebre da qual tentava fugir rapidamente. Gostava da vida, nascera para a vida, no entanto aparentava carcomida pelos cupins e traças da desilusão. Tinha vergonha desse melodrama que se tornava. Era preciso sorrir; mas seu sorriso nascia como a exigência automática diante de um flash numa fotografia com as amigas.
Sentia-se tão cansada por essa peregrinação... tão cansada por entregar seus olhares a ermo, em busca de um desconhecido, de alguém que preenchesse um enorme vazio deixado e suprisse as súplicas que suas esperanças exigiam...
Ele não era alguém de contornos precisos, não tinha um rosto definido, porque os ideais daquela mulher só poderiam ser rabiscados no plano da alma. Ele era um desenho que não foi feito para enxergar, mas para sentir.
Perambulava pelas noites, em todos os bares, esquinas... Era uma cega que não reconhecia o gosto do amado em tantos lábios beijados, em tantos carinhos fugazes... O amor estava em crise?
Continuava a ouvir somente o ruído dos próprios passos sobre o asfalto ainda quente. Nada tinha cara de companhia, nada tinha sabor de música – tudo era apenas silêncio.
Aguardaria que essa presença secreta e desejada a encontrasse. Cansou-se de ser peregrina, cansou-se de encher seu coração com planos vãos, com desejos que não se compartilhavam. Perfumou-se mais uma vez para si e foi dormir um sono sem sonhos.
(Nem desconfiava que Deus preparava uma primavera silenciosa em seu nome.)

Hérlon Fernandes Gomes
Brejo Santo – Ce

Desenho de Renato Fernandes Feitosa.
Juazeiro do Norte - CE

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ESTRANHEZA ILUMINADA


Ela chegou a uma conclusão iluminada: “Você não me pertence mais.” Estranha constatação. Seria triste? Era, ao menos, cheia de alívio.
Agora se pegava investigando a si mesma e percebia que não era nada confortável a sensação de alguém lhe pertencer. Sentiu-se leve, cantarolou uma canção de sua juventude: "Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa. Muito leve, leve pousa..." Soltou todo o ar dos pulmões como se expelisse todo o enfado que a incomodava.
Começou a elaborar na mente uma lista de coisas que preencheriam de felicidade o vazio deixado pelos anos que dedicou ao ex-marido: ler bons romances, ouvir mais música, cuidar melhor do seu jardim, viajar mais... “Ex é pra sempre”. O que a amiga quis dizer com isso? Ele seria apenas como a presença de fotografias sepultadas em álbuns esquecidos... Viveria seu resto de tempo sem se lamentar, sem se incomodar como ele resolveria tocar seu barco pra frente. Só tinha medo de uma coisa: querer amar novamente. Ai... essa possibilidade dava calafrios em sua espinha, uma ansiedade incômoda, um pensamento que ela imediatamente tratava de descartar, de fugir. Já não havia mais tempo, já não conservava no rosto o viço que o amor exigia. “O amor não conhece idade, credo, cor, sexo.” Novamente a voz da amiga a contradizer suas ideias mais confortáveis... Poderia preencher esse sentimento com outros; afinal não se pode amar apenas de uma forma. Tinha os filhos para quem ainda poderia ligar, passar as férias, já tinha até netos... “Chegará um momento em que as plantas do jardim já não serão companhias tão vivas”. Ai, também essa amiga não ajudava em nada... Queria provar que Jobim estava errado: deve ser possível ser feliz sozinha... Seria? Pelo menos não tinha medo da solidão, só não gostava do silêncio. O silêncio dava margem para que se perdesse nesses pensamentos insólitos. Despertou do devaneio com o enroscado e o miado de Josephine em suas canelas. Eram somente as duas agora; mas Josephine tinha o privilégio de não se questionar.


Hérlon Fernandes Gomes
09 de dezembro de 2009.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O CANTO DO VIM-VIM




Como exigir do Tempo para que faça com que as goiabeiras frutifiquem mangas? Como exigir do mar que sua água escorra doce pela praia? Seria a mesma coisa exigir de si mesma que esquecesse de sentir seus pesares de amor, que usasse a frieza da razão quando o coração era todo o seu império; quando seu combustível era todo esse fogo que a consumia e ao mesmo tempo era sua luz de encantamento.
Mesmo que ela sofresse depois, mesmo que ela terminasse o final de sua jornada rememorando planos fracassados, ainda assim sentiria que aquele tempo vivido teria valido a pena, porque se sabia convictamente impotente diante do controle das emoções dos outros.
Sabia amar por si mesma. Às vezes cometia o triste engano de querer amar pelos dois. Sabia a poesia do que sentia; mas continuaria sempre cega diante do que ofertava aos homens, porque ninguém pode querer dirigir o destino do coração de outrem e, por isso, seria impossível precisar numa balança as grandezas do amor de quem ama e de quem é amado. Ela poderia muito bem tocar sua vida pra frente sem querer conhecer a exatidão dessas respostas.
Sentia que vivia uma frustração pelo fim da primavera de um amor. Haveria um amor-paixão pleno de um ser humano para com outro? Haveria esse desejo permanente de se integrar numa simbiose de almas? Seria justo pedir a Deus que isso acontecesse em sua vida? Quando se atordoava assim por essas questões sem respostas imediatas, apenas um café forte e meio amargo acordava-a desse coma sentimental...
Não nascera para se acostumar em castrar o que sua alma teimava em sentir, por mais que lhe dissessem que ela poderia pintar sua aquarela com outras nuances... Não! Ela nascera toda feita de amor; ela era toda sentimento e jamais poderia arruinar seu coração com os ditames frios da razão. Não! A água que saciava sua sede não podia ser bebida simplesmente nas fontes que lhes prescreviam. Não nascera para viver da receita dos outros, porque conhecia seu próprio mecanismo, porque não se fartaria em mapas que lhe prometiam falsos tesouros. Intimamente, esquecer de amar equivaleria a um sacrilégio para sua essência. Era simples ouvir dos outros mirabolantes conselhos; era fácil na boca dos outros a solução pros seus dilemas imateriais...
Terminou o café e recebeu uma visita incomum: o pássaro Vim-Vim entoava seu canto misterioso no alto de uma goiabeira... “Como exigir do Tempo para que faça com que as goiabeiras frutifiquem mangas?”
No Cariri, há uma crença acerca do canto dessa ave. Dizem que o Vim-Vim carrega no seu canto notícias boas ou ruins. Resta a quem o escuta, questioná-lo: “se for notícia de bem, fique; se for notícia ruim, vá embora.” Intimamente questinou ao Vim-vim se seriam boas as notícias para seu coração. O pássaro se demorou por quase todo o fim da tarde a desfiar-lhe augúrios de boa sorte...
Era dela se encher de esperanças. É de quem ama demais querer acreditar que, amanhã, uma emoção melhor que a de hoje animará melhor a festa de seus sentimentos mais caros.
Ela nascera para acreditar em anjos, fadas, na voz do coração e também na sorte trazida no canto de um Vim-vim.


P.S.: Aos que amam demais.


Hérlon Fernandes Gomes

sábado, 7 de novembro de 2009

MIGALHAS



Sentia-se diferente dos outros, como se tivesse sido forjado de uma matéria diferente dos outros humanos, como se nele pulsasse um espírito não tão comum nessa selva de tantos cegos. Era tão inexato que qualquer tentativa de explicá-lo acabava no devaneio, em rascunhos que pouco sugeriam; mas bem no seu íntimo habitava uma essência comum. Ali ele se refugiava, ali ele alimentava os desejos que poderiam completá-lo, os argumentos que finalmente pudessem explicá-lo diante dos outros.
O que esperava do mundo? Esperava tantas coisas... Que Deus se compadecesse de seus sonhos e enchesse seus caminhos de primaveras, mesmo quando os tempos chorassem tempestades de desolação.
Naquele dia, sentia que a solidão estava embaçando a transparência de sua luz. Não tinha reparado muito bem, mas agora descobria que fome era aquela, que sede era aquela, que inquietação era aquela que lhe pertubava o íntimo.
Resolveu sair sozinho, procurar um bar e exercer sua filosofia de boêmio, ouvindo sua história ser cantada na voz de quem também amou demais. Amou demais? Ás vezes ele tinha dúvida se amara demais... Queria que sua esperança tivesse razão e provasse que aquilo não fora amor. Amor desacredita a gente? “Só mais uma dose...” Sentiu falta de uma quentura, de uma cumplicidade, de uma palavra que pudesse servir de parâmetro para suas escolhas, que pudesse dizer que o seu velho jeans precisava ser aposentado... Saudade de um perfume, saudade de toda uma existência que ele cismava em acreditar que não se construiria como imaginava...
Do outro lado do bar, uma moça o observava. Parecia sozinha. Sozinha como ele, de lábios sem dono, de alma livre, calores solitários...  Ele se aproximou, fez um comentário qualquer sobre a música que tocava, ofereceu uma bebida. 
Não agiriam como estranhos naquela noite. Teriam piedade de si mesmos, criariam uma atmosfera de intimidade que lhes permitisse montar a cumplicidade que tanto desejavam. Dividiriam suas químicas, enganariam seus próprios corações com mais um amor descartável, com aquela felicidade que se rasga assim como a cigarra, de uma vez só.
Haveria um nome para relembrar? Ainda tinham esperanças de que as migalhas um dia se transformassem em banquete; sonhavam que alguém cantasse o final de suas histórias de uma maneira mais feliz. 
Dormiriam abraçados, como se se conhecessem de outras vidas.


Hérlon Fernandes Gomes




sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diário de viagem


O que fazer quando se está sem inspiração? Só escrevo inspirado... Viajei esses dias, na tentativa de que algo novo me fizesse trazer uma nova cor às palavras. Encontrei lugares lindos, vivi momentos únicos, mas a palavra não é capaz de dizer a emoção do que vivi; não é capaz de corporificar o que gostaria de escrever.
Sinto-me impotente, procurando uma linguagem que só fala intimamente na alma de cada um de nós: uma energia que se compara a quando a gente se arrepia de felicidade; quando a gente fica surpreso demais com um presente perfeito e, de tão bobo, não consegue agradecer à altura. Estou transbordado até então, cheio de uma ressaca de paz que me sufoca a escrita. Resolvi postar a fotografia para que me perdoem a incompetência de poeta.


Hérlon Fernandes Gomes




P.S.: Fotografia tirada em Barra Nova, praia do litoral leste cearense pelo amigo fotógrafo Aragão, que registrou perfeitamente a atmosfera muito além do que as palavras poderiam dizer.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NO DIVÃ



Doutor, meus amigos enlouqueceram e eu ainda duvido se minha lucidez também não está corrompida. Sim, continuo seguindo suas recomendações. Não, eu não estou deprimido... Angústia é depressão? Angústia de hoje não saber se estou sentindo as coisas da maneira como deveriam ser sentidas. É, eu sei que o coração e o espírito não precisam de um manual de instruções; eu sei que preciso descobrir, em minha fraqueza, a minha fortaleza... Eu só não queria estar obrigado a ter de ser feliz como todo mundo, doutor. É por isso que estou aqui. Minha felicidade exige tão pouco de mim... Não preciso do muito deles para que meu sorriso seja sincero...

Sabe, doutor, continuo a sentir aquela podridão no ar. Ela se desprende de algumas pessoas e isso tem se tornado cada vez mais frequente e insuportável. Eu desconfio que essa fedentina tem mortificado parte das almas do planeta. O senhor também não percebe que algumas pessoas, além de empestarem o ar, têm perdido uma certa luz dos olhos? Claro que naõ comentei isso com mais ninguém! Eu sei que isso parece loucura... Esta semana estive no banco e vomitei ali, na frente de todos, porque a carniça sufocava-me. Sei que o senhor tem me proibido de visitar bancos, mas no mundo de hoje... Ali parecia um açougue de carnes apodrecidas... Outra coisa inusitada tem acontecido. Agora passei a enxergar os sonhos mais ambiciosos deles, doutor... São coisas tão mesquinhas que eu me envergonharia de contar ao senhor. São sonhos de esperanças apodrecidas, porque deixaram se transformar simplesmente no que podem comprar. Quando seus ideais não são atingidos, já sem alma, se transformam em zumbis e passam a viver numa espécie de limbo, atormentados por medos sem porquês, onde tudo perde o sentido. Percebo que alguns, doutor, resgatando um fio de esperança e fé, despertam do transe e reencontram o prumo.

Sigo à risca as suas recomendações para não me tornar um deles. O cheiro dos cajueiros de setembro tem me ajudado a dissipar esse cheiro ruim; as acácias em flor alimentam mais e mais a luz que me põe em equilíbrio comigo mesmo; nos momentos de solidão e medo, entrego minha alma a Deus e rezo. Tenho bebido algumas estrelas na madrugada e me banhado nu no olho nascente das águas – tudo clandestinamente, doutor! Se eles souberem que ando fazendo essas "maluquices", mandam me internar...


Hérlon Fernandes Gomes

10 de setembro de 2009.