sábado, 16 de agosto de 2008

A RESPEITO DO AMOR...


Ultimamente tenho tido bastante insônia; acho que tenho bebido muito café... As noites insones são bem mais solitárias... Ao revirar-me na cama, começo a pensar sobre inúmeros assuntos, além de fazer uma análise sobre minha vida e a dos outros. Dentre tantas coisas que poderia escrever, além de corrupção, violência, fome...
Tenho uma dívida de gratidão para com meus leitores; já estamos tão cansados em ser bombardeados pela metralhadora insana que vêm sendo as imprensas televisiva e escrita; falta poesia no mundo, falta esperança para nós humanos. Comemos o pão de hoje suando o de amanhã. O tempo não pára e a gente permanece despido de qualquer coisa que não seja absurdo.

Pois bem, falemos do amor! Será que é preciso estar enamorado para falar sobre o amor? Penso que não; mas o amor é sem dúvida o sentimento-objetivo, é nossa missão-mor. Aqui não há espaço para paixão, essa coisa doentia, que pela própria etimologia nos remete à tradução de sofrimento. Paixão vem do latim passio, que significa literalmente sofrimento. A paixão de Cristo remete à sua consternação no calvário. O amor é o estado evoluído da paixão, é firme, é incondicional, é generoso.

Sinceramente, acho que se todos vivessem um grande amor, o mundo estaria tão diferente. Por que banalizaram tanto esse sentimento? Tacharam-no de brega; atribuem-lhe outros sinônimos: dinheiro, conforto, sexo. Convenhamos que cada um dos itens anteriores é perfeitamente desejável e nos possibilita uma felicidade considerável. Mas um relacionamento sustentado apenas em valores supérfluos, certamente incorrerá no insucesso, na infelicidade certa, como uma casa de gelo que não contava com a chegada do verão.
O amor é riso, é espírito, é arrepio na pele e a gente sente realmente que é útil diante da vida; cada um sente a missão reservada, um motivo justo para labutar nesta existência, tão passageira, mas que nem por isso deixa de ser menos bela.
Conto as horas que me separam do meu amor... Sinto uma profunda necessidade de estar ao seu lado, comungando o mesmo ar, rindo das mesmas bobagens, sem fazer absolutamente nada; mas, pelo trivial motivo de estar ao seu lado, adquiro grandeza e penso em Deus. Amar é um estado superior, um transe, um momento cheio de vertigem – como a agradável sensação do lança-perfume no domingo de Carnaval... Ridículo isso, não? Ridiculíssimo! Que o diga Fernando Pessoa com todas as suas cartas de amor ridículas! E mesmo assim, quem nunca o foi, quem não é, quem não quer ser?
Minha cama parece ser mais macia quando amo; meu sono é sem dúvida sem sonhos, já que meu maior sonho respira ao meu lado... Quão bestiais somos! E quantas bobagens também realizamos...
O ser humano que não ama é amargo e tem maiores probabilidades de morrer de câncer, de encruar como uma fruta deficiente que perde o viço por conta do travo, do amargor, do azedo. Esqueçamos um pouco que somos políticos, somos burocratas, capitalistas, entes globalizados. Lembremos que podemos sorrir, que o beijo faz bem e que o amor gera a vida. Ai, ai... Coisa boa é sentir saudade; é ter alguém para silenciar o nome baixinho em nossos pensamentos, alguém para quem ligar ao acordar de um pesadelo, alguém com que sonhar e fazer inúmeros planos. E eu aqui, completamente ridículo, como todas as cartas de amor... também ridículas; mas estupidamente, satisfatoriamente FELIZ!

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE.
P.S.: Publicado originalmente em 2005, na minha coluna do extinto AGENDA CARIRI.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O GOSTO AZEDO DA TRAIÇÃO


A palavra traição soa em meus ouvidos como navalha cortante, cilício arquejante na pele do Salvador. Falo especificamente da traição amorosa, da incapacidade humana de satisfazer seus instintos com uma única pessoa. “Quem ama, não trai”. Até que ponto esta premissa é verdadeira? “O que os olhos não vêem, o coração não sente”.
Quando a gente ama verdadeiramente, existe uma porção de sentimento intocável, inabalável, protegida de toda e qualquer corrupção. Essa parte não se modifica, não se diminui na eventualidade de uma traição. Quando se ama de verdade, o objetivo da traição é meramente instintivo.
Mas, vale a pena trair? Isso é tão relativo...
A traição é fugaz e, para quem sofre de crise de consciência, certamente carregará consigo o peso de um crime. Não vou bancar o puritano e incluir-me no rol dos santos. Já traí, sim, e nas vezes que isso me aconteceu, senti-me o próprio Judas, ainda que tenha presenteado meus instintos com todos os prazeres carnais.

A traição tem o gosto azedo e parece feder quando retornamos aos braços de quem amamos. Tem o sabor de uma bela roupa alugada, um doce pequeno que logo se acaba, uma falsa jóia. O beijo traído é insípido; o sexo, animal – sem sublimidade, sem entrega de espírito, mecânico...
Beijo bom é aquele dado em quem se ama: morno, molhado, arrepiante. Sexo bom é aquele realizado com quem se ama: quando somos cúmplices e desejaríamos todo o tempo do mundo para permanecermos abraçados, como se o mundo nos pertencesse.
Quando se ama de verdade, a traição é um erro; às vezes passível de perdão. Por que arriscar o estável, o certo? Por que se contentar com um petisco, se você tem um banquete em casa?
A fidelidade é, sim, a maior prova de amor; pois mostra que o casal se basta, está completo. Quem é fiel, compreende, é amigo, companhia agradável sempre.

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE.
P.S.: Publicado originalmente em 2005, na minha coluna no extinto AGENDA CARIRI.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Penso que todos nós em algum momento duvidamos da própria lucidez. Estamos constantemente sendo provados, assolados por dúvidas acerca da veracidade das coisas, de fatos. Por que será que existo? Por que preciso viver esse momento? E, a questão das questões, aquela que divide toda a humanidade: Quem é Deus?
A humanidade está dividida entre os que acreditam nesse Ser e nos que ignoram totalmente a existência dessa força que tudo comanda. Os que crêem, o fazem e pronto; levam uma vida tranqüila, resignada — arriscaria dizer que até mesmo mais feliz. Os que não acreditam, pensam que esta vida é curta e, por isso, passageira — vivem impetuosamente. Mas ainda há aquele rol dos que simplesmente duvidam e tentam buscar uma resposta exata para uma pergunta que ninguém respondeu — esses geralmente acabam frustrados, são chamados de loucos e poucos dão crédito a seus comentários.
Hoje, pela manhã, assisti a um depoimento de uma astronauta sobre a emoção de ver a Terra lá de cima. Ela disse que quando estamos embaixo, temos a sensação de que nós somos o mundo, de que o que realmente importa são as nossas questões, os nossos sofrimentos e o enfrentamento diário que envolve os homens. Vendo a Terra de cima, à cerca de quatrocentos quilômetros da atmosfera, contemplando o silêncio absoluto, temos a nítida certeza de que este planeta é a única coisa que nos resta.
Abaixo desta fina camada, que se chama atmosfera, temos a vida se espalhando entre oceanos, florestas, grandes metrópoles; acima dela, apenas o vácuo! E de lá de cima é possível ver o sol se pôr e nascer dezesseis vezes, a cada uma hora e meia. Parece, pois, que alguma força incógnita, invisível, tudo comanda, misteriosamente, secretamente, constantemente... E nós, meros mortais, estamos ocupados demais em novas tecnologias, em retardar a velhice, vencer a morte.
Lá de cima, a Nave-mãe é quem assume o posto de pequenez e a paixão não correspondida de inúmeros humanos, a corrupção, a violência, a criança que acaba de nascer, uma nova espécie de flor a ser descoberta... tudo isso está alheio; pois a Terra, vista lá de cima, é única e pequena, assim como somos para tentar compreender a identidade de Deus.
O mistério da vida é o que mais me intriga. Penso que, para viver princípios harmoniosos, precisamos admitir o nosso status de pequenez e buscar aproveitar a felicidade que essa existência nos proporciona. Diante da perfeição que é o universo, nada mais nos surpreenderia e eu tenho no mistério a resposta para as questões jamais respondidas.

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE.
P.S.: Publicado originalmente em 2005, na coluna que me pertencia no extinto AGENDA CARIRI.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A FILHA DE JESUS


Nome: Sara Saint-Clair
Pai: Jesus Cristo de Nazaré
Mãe: Maria Madalena
Naturalidade: França (antiga Gália)

Dan Brown, autor de “O Código Da Vinci”, está causando alarde com seu best-seller. O livro é um sucesso de vendas, cerca de 25 milhões de exemplares em todo o mundo! No Brasil, o livro está na lista dos 10 mais vendidos há cerca de 40 semanas. Qual a receita do sucesso? Os supostos segredos escondidos pelo Vaticano.
O Priorado de Sião era uma sociedade secreta, que teve como grãos-mestres os gênios Leonardo Da Vinci, Sir. Isaac Newton, Boticelli, Victor Hugo, entre outros. O objetivo dessa sociedade seria guardar uma relíqua, que mudaria todos os rumos da humanidade. O tesouro: o Santo Gral.
Conforme dados históricos colhidos pelo autor, como por exemplo alguns trechos dos controvertidos Manuscritos do Mar Morto e evangelhos que não figuraram no compêndio, que hoje é a Bíblia Sagrada cristã, o autor faz uma reviravolta sobre a vida de Cristo.
Segundo a narrativa, por Cristo ser judeu, necessariamente precisaria casar, ter uma prole, já que os preceitos judaicos assim delimitam. 
Jesus Cristo, descendente direto do Rei Davi, teria desposado Maria Madalena, descendente direta do Rei Salomão. 
Mas Maria Madalena não foi a prostituta a quem Cristo nos ensinou a lição do “atire a primeira pedra aquele que não tiver pecados!”? Tese polemicamente desmistificada  pelo Código Da Vinci...
Ao fundar o Cristianismo, em 423 d.c., um dos objetivos de Constantino foi eliminar o Sagrado Feminino da história da religião. O próprio Cristo teria deixado instruções expressas para que Maria Madalena fundasse sua Igreja; mas por machismo, intolerância ao feminino, o masculino vai eliminar e banalizar a figura de destaque da mulher na sagrada escritura.
O Santo Gral não seria o cálice sagrado em que Cristo serviu vinho aos apóstolos na última ceia. O Santo Gral, na verdade, seria uma transformação de Sangue Real, equivalente ao mausoléu de Maria Madalena, contendo ainda um diário pessoal escrito por Cristo e outro por Maria Madalena. 
Todo esse tesouro vem sendo guardado por tempos longevos pela Ordem dos Templários e escondido inúmeras vezes pelo Priorado de Sião, que teria ordens expressas para revelar o segredo na virada do segundo milênio para o terceiro.
O livro não deixa de ser convincente, ainda mais por não pôr em xeque a santidade de Cristo. Cristo é santo, isso é o mais importante; e para ter sido santo ele não precisou renunciar sua vida de humano; aliás, desde quando amar é pecado? 
Da Vinci, o maior gênio da história da arte, antipatizava a Igreja Católica, mas mesmo assim recebia encomendas para pintar motivos sacros; em todos eles teria deixado códigos que nos remetem a esse segredo: a verdadeira identidade de Cristo. À direita de Cristo, na Última Ceia de Da Vinci, está sentada Maria Madalena e uma pseudo-mão, aparentemente de São Pedro, ceifa o pescoço da esposa de Cristo - dando mostras da eliminação da importância da figura feminina na história sagrada; sobre a mesa, não há o Santo Gral, mas treze taças...


Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE.
P.S.: Publicado originalmente em 2005, na coluna que me pertencia no extinto AGENDA CARIRI.

sábado, 9 de agosto de 2008

NIETZSCHE E CLARICE LISPECTOR DIVIDEM UM CIGARRO


“Faço votos que os intelectuais não entendam”.
Você já duvidou de sua lucidez? Você já se perguntou se realmente está com a razão, quando pensava realmente tê-la? O que é a verdade para você? O que é o amor? Como é ser amado? Qual a sensação da felicidade na pele, no pensamento? Até que ponto seu ciúme deixou de ser saudável e passou a ser loucura? Até que ponto todo o intelecto que você adquiriu durante seus vinte anos de estudo pode ser considerado irrelevante em uma mesa onde se discutem assuntos triviais?
Nietzsche me diz: “E assim fazem todos os fracos: perdem-se no caminho. E seu cansaço acaba por perguntar a si mesmo: ‘Por que seguimos este caminho? Tudo é tão igual!’”
Hoje estou muito reticente... Disseram-me que estou me perdendo num caminho sem volta... Mas que bobagem! Apenas busco um norte, por mais que não saiba por onde esteja andando, todavia não me sinto perdido. Por essas veredas pretendo encontrar algo, ainda não exato, mas que me devolverá o sentido que perdi, não sei onde; talvez entre a infância e adolescência, quando me apercebi da existência da morte, quando descobri o amor e os prazeres da carne.
Tudo é tão igual... Tudo é tão igual... Definitivamente não quero ver a vida passar e apenas bocejar de preguiça, de cansaço, enquanto esse espetáculo misterioso desfila diante dos meus olhos. Louco? Irresponsável? “Você precisa ter cautela, esses caminhos podem ser perigosos!”, “Mas, se conselho fosse bom, ninguém dava: vendia!”. Por que todo esse medo? Ando no lombo da vida, ela é minha cria, sou seu veículo apenas.
Tristes daqueles que não ousam, que não se arriscam em tentar ser felizes mesmo onde só enxergam imperfeição. O sabor da vida é descobrir o doce da fruta debaixo da casca áspera, feia, enegrecida. O mel da vida pode estar muitas vezes no beijo carinhoso, no meio da noite, embaixo das cobertas, no silêncio, sem nada de público, nada de político, nada de dialético... Essas bobagens foram inventadas pelos mal-amados. O amor e a felicidade não se expressam através de nenhuma língua específica, não possuem um idioma, um código numérico; essas coisas brotam da alma.
A noite está solitária. Queria não desperdiçar meu tempo com grandes questões. Quisera eu permanecer isolado... Isolado de quê mesmo? Isolado da hipocrisia humana, do medo mesquinho, da infelicidade gratuita dos homens sem alma; mas eu não consigo. Resta-me ser profano (?) e gargalhar descaradamente, como se risse da própria morte. Aliás, não me imagino morto, a idéia de eternidade sempre me acompanhou como uma certeza, algo concreto que se come, sente-se o gosto.
Hmm... Sono? Dor de cabeça? Quem está com a razão? O que é a razão? Os ignorantes são mais felizes.
Hoje em dia, prefiro não ouvir conselhos, por mais que os mesmos me tentem, por mais que eu possa imaginar que um outro alguém possa estar com a razão e me mostre um atalho para o sonho. Prefiro acertar ou errar por mim mesmo, prefiro juntar minhas próprias cicatrizes e exibi-las como troféu do meu aprendizado, diante da vida. Sim, a vida, esse sopro de Deus, essa coisa que os homens levarão uma eternidade buscando a fórmula até serem vítimas da própria curiosidade, assistindo, como zumbis, à própria destruição.
Porque, meus amigos, tudo passa tão rápido que, se procuramos traçar um perfil metódico para toda a nossa existência, num lampejo veremos que de nada adiantou tanta cautela, tanto medo, tanto senso em se guardar quando, na verdade, tudo o que provamos foi um prato insosso, doente... E aí já não há mais tempo, tempo pra nada; nem mesmo pra curtir sua eternidade, já que você não acredita nela.
***
Para finalizar, Clarice recita Nietzsche: “‘Para os puros tudo é puro.’ Assim falava o povo. Mas eu vos digo: Para os porcos tudo é porco!”

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE.
P.S.: Publicado em 2005, na coluna que me pertencia no antigo AGENDA CARIRI.

Auto-retrato (Agosto 2008)

Um cigarro, uma dose de rum, a madrugada...
Três companhias íntimas,
Três presenças que me suportam.
Crio meu próprio ambiente,
Torno você mais íntimo de mim
E procuro refúgios encantados.
Eu nunca me direi totalmente,
Terei sempre a minha fuga,
Terei a verdade que escolher.
Esqueci do sono esta noite,
Para ficar mais junto de mim,
Para me perder em minhas questões.
Não há mais ninguém que me domine as horas
- E isso é tão livre, e isso é tão leve...
Sinto minha quentura, sinto minha vida...
As coisas estão deixando de ser vazias,
Tenho me alimentado mais de fé.
***
Alguém me disse, na mesa de bar, que me entende...
As luzes estão ficando mais agradáveis em meus olhos,
Estou com vontade de sorrir freqüentemente.

09de agosto de 2008

Hérlon Fernandes Gomes
P.S.: Em homenagem às coisas boas que acontecem em minha vida.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

DEVANEIOS COM CLARICE LISPECTOR

É quase meia-noite. Sinto o sono aproximar-se de mim, vindo sorrateiro, hipnotizante, comprimindo minha alma, confundindo minha mente, desenterrando sensações e medos que não quero mais possuir.
Tudo é déjà vu, sinto vertigem. O ciúme corrói o amor-próprio e já me vejo insano, procurando definir a minha verdade, estabelecer uma medida exata até onde era lucidez e passou a ser loucura.
Fito-me no espelho. Vejo-me belo, atraente; imagino-me sendo desejado por quem não conheço, imagino-me íntimo de vultos que apenas tive contato através de fotografias e que procuro descobrir coisas absurdas a respeito dos mesmos: a comida preferida, o perfume natural, a intimidade, o banho, o sabor do beijo... Imagino-me amado como nunca fui, sendo desejado ardentemente por alguém que até mesmo seria capaz de matar ou morrer por mim... Sim, é quase um melodrama. Estou triste.
Começo a chorar copiosamente, débil, vendo-me como a mais triste das criaturas por ter perdido o ser amado. O travesseiro encharca-se do meu pranto e eu desejo ardentemente que tenham piedade de mim, que me notem, que corram em meu auxílio.
Novamente quero ser desejado por alguém que me idolatre, que me diga o quanto sou importante. Atinjo o limite do que chamo sobriedade. Agora pareço ridículo. Espanco meu próprio rosto, insulto-me, acho-me feio, começo a ter vergonha de mim mesmo.
Imagino-me tendo dons! Se eu fosse um ótimo cantor! Se fosse um belo dançarino, um pianista, um escritor famoso! De repente a fama me atrai! As badalações proporcionar-me-iam um bem tamanho! Eu teria a felicidade?
Ah, a felicidade... Essa poção mágica feita de não sei o quê, que se encontra em não sei onde... O sono pega-me. Estou dominado por uma força superior que me carrega vagarosamente, pesadamente num azul frio que vai escurecendo pouco a pouco. O silêncio toma-me de maneira progressiva. Estou no poço dos sonhos.
Sei que não sinto dor. Consigo perceber o cheiro de um perfume preferido que usei no passado. Vejo perfeitamente as cores e concluo a grande mentira: os sonhos são em cores, não há nada de preto e branco. Acho que só os infelizes possuem sonhos apagados...
Sou medroso até mesmo sonhando; não consigo realizar tudo o que desejo. Tenho medo de quê? Sinto-me em outro plano e não temo a morte. A morte... a morte... a morte – o oposto da vida. Alguém muito célebre teve essa simples conclusão de que a morte é justamente o oposto da vida. Tento lembrar-me de quem foi. Não consigo. Se a morte é justamente o oposto da vida, então a morte não é tão misteriosa quanto se imagina. Tema pouco atraente para uma hora de sono. Melhor mesmo é pensar no infinito.
Sou quase egoísta; nada me satisfaz completamente. Ainda quero alguém só pra mim, ainda preciso acreditar no amor como um antídoto para todos os problemas... Ai... O dia está amanhecendo, alguém bate na porta. Não queria acordar! Uma preguiça estonteante abate-me na cama. Ouço o tic-tac do relógio e torço para que o tempo se demore a passar para que eu possa vencer essa preguiça que se espalha sobre mim, entranhada em meus cabelos, sobre meu corpo nu arrepiado pelo frio matinal.
Calo-me. Penso em tudo. Quase tenho medo de mim mesmo.

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE P.S.: Publicado em 2005, na coluna que me pertencia no antigo AGENDA CARIRI.

terça-feira, 29 de julho de 2008

PIEDADE

Estive pensando sobre as coisas que mais causam pena nos humanos. Tiro por base o que sinto, o que penso. Sinto pena por coisas corriqueiras, que enchem nosso cotidiano: uma velhinha, simplesmente por ser velhinha; um cachorro feridento ao sol do meio-dia; uma criança faminta...
A piedade é desses sentimentos impotentes, só existindo até quando a mesma não pode ser sanada. Se pudermos realizar algo que diminua ou extermine de vez esse sentimento pesado, estaremos diante do dever cumprido e nosso espírito parece revigorar-se diante disso. A caridade é a cura para a piedade; mas nem sempre aquela sana esta. Muitas vezes somos invadidos por uma torrente de impossibilidade; buscamos uma saída para a solução de problemas que nem ao menos sabemos exatamente o que são, então assistimos como meros espectadores a uma cena deprimente, sobrando apenas um nó na garganta, um aperto no peito, restando apenas segurar a tímida lágrima.
Quisera não sentir pena por ninguém. Já me disseram ser a piedade o sentimento mais vil que se pode nutrir por alguém. Discordo. A piedade é caminho para o afago, à mão amiga, para o auxílio necessário.
Muitos confundem piedade e desprezo. A verdadeira piedade não se regozija com o infortúnio do próximo; mas enseja doação. Quem se diverte com o infortúnio do próximo, alimenta a inveja; e isso sim é algo extremamente negativo, perigoso.
É possível sentir pena de si próprio? Claro que sim. Mas isso é coisa de gente acomodada, infeliz e que não faz exatamente nada para reverter esse quadro. As pessoas mais infelizes são as que sentem pena de si próprias. É preciso fechar os olhos para tudo o que é vida, toda essa beleza misteriosa que nos cerca e perder tempo sentindo pena pelo que não desfrutamos, pela fatalidade criada no nosso afã, colocando-nos como um batalhão que depõe as armas antes de conhecer o opositor.
Desse tipo de gente eu não tenho pena: gente que sente pena por si própria. Acho o cúmulo do comodismo ter a infelicidade por opção; pois só nós mesmos, melhores que ninguém, podemos (devemos!) fazer algo em benefício próprio.
Quando sentir pena de si mesmo, ligue o som e ouça sua música preferida; perfume-se para si; vista sua roupa mais bonita nem que não vá para nenhum evento especial; abra um garrafa de vinho; sinta-se mais atraente diante do espelho; esqueça as contas vencidas e não pagas e sonhe, sonhe... Sentir pena de si próprio é mesmo coisa de gente besta!

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE, 29 de julho de 2008.

domingo, 20 de julho de 2008

PRECE AO SENHOR, MEU DEUS

Senhor, revigorai-me a alma,
Restaurai-me a paz, iluminai-me os caminhos.
Preciso tanto de Vossa luz;
Preciso tanto alimentar-me de Vossa esperança alentadora.
Entrego-Vos meu destino
E tenho fé de que cada amanhecer seja uma surpresa feliz,
De que a cada dia Vossa presença se reflita nas minhas vitórias
E que todas elas me engrandeçam em espírito.
Peço o afago da Vossa mão em todos os segundos do meu tempo,
Quero sentir-Vos, Pai – de quem me socorro na desolação.
Abençoai-me a vida,
Abençoai-me o presente,
Abençoai-me o futuro.
Que, diante de qualquer obstáculo ou tentação que me descaminhe, eu possa enxergar sempre Vossa vontade.
Amém.


Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE
20 de julho de 2008.

P.S.: Gosto de orar através da escrita. É uma forma de bênção. Que o Senhor me atenda.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Crítica ao livro Geminianos - Poemas de Descoberta

Amante da introspecção “lispectoriana”, Hérlon Fernandes Gomes nos presenteia com esta obra de profundo mergulho incondicional n’alma. Discorrendo sobre sentimentos afins à nossa condição, mesmo revestidos de outros corações, oferece-nos um referencial oportuno para o polimento ponderativo do SER humano. Mesmo visto sob o alcance visual individual, possibilita reflexões nuas e marcantes do nosso universo particular. A profundidade das colocações pode, num primeiro instante, não sensibilizar mentes incipientes, contudo quando houver aproximação entre o conteúdo assimilado e a maturidade cognitiva do leitor o impacto compreensivo e transformador tornar-se-á inevitável. Vejo esta obra como rara e fundamental para o processo de crescimento intelectual ao qual somos chamados diuturnamente, devendo, por isso, constar entre as chamadas obras essenciais. A oportunidade de tecer comentários sobre este magnífico escrito, bem como sobre o seu talentoso autor, causa-me prazer.

Ronaldo Lucena Miranda

P.S.: Esta é a orelha de Geminianos- Poemas de Descoberta, a ser lançado em breve, em data a ser confirmada. Orgulha-me receber uma crítica como esta, que compreende de maneira arguta a essência do que procurei expressar nos poemas desse livro. Ronaldo é um ser humano ímpar: este médico realmente imbuído de seu juramento, este homem de espírito generoso e de tato sutil para as manifestações artísticas, culturais, humanas e universais.

terça-feira, 1 de julho de 2008

ALEGORIA TRISTE

E o mundo finalmente perdeu a magia...
O espírito de tudo acabou se exilando num canto secreto e as coisas foram parecendo cada vez mais mortas e comuns. O sol parou de dialogar com o espírito humano, e as estrelas deixaram de ser suas cúmplices - a natureza inteira entrou num automatismo vegetal. O homem foi despertando para a lógica e questionou um Criador... Os comentários nem sempre foram suficientes, diante de teorias que seriam definidas e defendidas ao longo dos tempos, a sangue, suor e lágrimas.
O homem vai se entregando ao impulso do ter... Há crueldade nas ruas, a paz vive ameaçada. Quem nos livrará desse feitiço? Alguns chamam de Deus. Dizem que Ele retornará. Está em cada um de nós, nessa consciência que se eleva, nessa magia-antídoto que nos faz reconhecer o bem, que nos coroa diante dos ímpios...

E se ainda resta a esperança, ela é a fé que nos precisa mover a um tempo libertador.



Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE, 1o de Julho de 2008.
P.S.: Para a criança que às vezes se desperta em nós e acaba por nos tornar mais íntimos das coisas transcendentais.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O SEGREDO DE MARINA II

Ninguém tem culpa de possuir desejos que não tenha procurado despertar. Que tamanho terá a ferida incurável de uma paixão não vivida? Marina havia entrado nesse estágio de exclusiva dedicação a esses pensamentos secretos. Era fugitiva abrigada em si. Passava a maior parte das horas contemplando suas conjecturas, analisando desejos impossíveis, precisando ser desleal a muitas pessoas. Fora do mundo das idéias, angustiava a impossível ânsia de se entregar ao que sentia.
Não sabia em que momento principiara aquela devoção por Sérgio, mas soube guardar isso no seu recanto mais profundo e isso talvez a tornasse numa perfeita mentirosa. Isso não comungava dos seus princípios... Disfarçava de todos o que no íntimo seria uma feliz verdade. As pessoas todas deveriam ser assim? Precisaríamos carregar frustrações para amadurecer? Seu desejo talvez nem fosse uma promessa de plenitude...
Sua vida, entre Laura e Sérgio, tornou-se um teatro, embora sua consideração e respeito fossem reais. O mais angustiante era ter de ser amiga quando na verdade queria ser amante dele. Enraivecia-se por isso. Por que justamente ele? Vivia cercada por homens bem mais interessantes, livres e que certamente apostariam numa vida a dois. Mas aquele fogo, aquela luz que acende na gente despertou-se por ele. Tinha medo de se tornar somente aquilo: aquele desejo reprimido.
De repente o sentimento frustrado estava limitando sua linha de pensamento. Não podia ter momentos ociosos, pois seus pensamentos se ocupavam imediatamente de desejos e fantasias... Depois vinha a culpa... Meu Deus do Céu, até quando sentiria isso? A gente deveria ter o poder de renunciar determinados sentimentos – muitos deles desembocam em abismos de sofrimentos.
Gostava de opinar quando solicitada, sentia-se importante por ter poder determinante sobre as coisas dele, pois os pensamentos de ambos andavam sempre em sintonia.

Hérlon Fernandes Gomes, Brejo Santo - CE, 26 de junho de 2008.