terça-feira, 25 de agosto de 2015

LÚMEN: O arco-íris poético de um cearense que merece ser lido

Hérlon Fernandes Gomes é natural de Brejo Santo, uma pacata cidade do sul cearense, da conhecida região do Cariri, um berço de cultura do estado.
Hérlon começou a escrever seus poemas na adolescência, publicando os primeiros textos em jornais da região e periódicos do curso de Direito da Universidade Regional do Cariri, de onde obteve o diploma de Bacharel, sendo inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Subseção Crato.
Paralelamente à carreira, o autor é amante da literatura e a literatura, pelo visto, é amante de Hérlon Fernandes. Não se explica de outra forma o perfeito arremesso das palavras do autor ao coração dos leitores de Lúmen, seu mais recente livro.
Nas palavras do romancista Jards Nobre, Mestre em Linguística e imortal da Academia Quixadaense de Letras, Lúmen é um “grandioso livro de poesia”. De fato, foi exatamente esta a sensação que tive ao terminar de ler Lúmen, livro que me foi presenteado recentemente pelo próprio Jards, a quem agradeço o privilégio de ter conhecido a obra de Hérlon Fernandes.
Fernando Pessoa disse certa vez que “quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. Eu diria, aproveitando-me da colocação, que as palavras da poesia de Lúmen enxergam nossa alma. Elas percorrem nossos sentidos como se fossem uma folha a percorrer suavemente as águas de um rio calmo. Parecem, por vezes, ser coisa nossa mesmo. Chega a chocar, como o fazem os praticantes da quiromancia, a perfeita interpretação dos nossos sentimentos e vida. Você não lê Lúmen, Lúmen é que lê você.
“Lúmen é tematicamente um livro que reúne o que de melhor nos legou uma sucessão de correntes de nossa poesia. Nele são cultivados temas caros à tradição poética, como o amor não concretizado, o amor carnal e a saudade, mas também se faz uma celebração da cultura nordestina, em que a chuva é consagrada e a simplicidade pode ser o segredo da felicidade”, afirmou Jards Nobre, que assinou o prefácio do livro, com o qual concordo em cada letra.
O autor de Lúmen (foto ao lado) já afirmou: “A arte não é uma vaidade do artista; ela nasce sem pedir licença, rouba-nos o sono, faz-nos abandonar o curso normal das rotinas e exige plateia. A escrita tem me dado a maior alegria que consigo por mim mesmo. Ela é meu ponto de equilíbrio, meu divã, meu vinho.”
Com alegria garanto aos leitores deste site: a arte de Hérlon Fernandes, que lhe é como vinho, vale a pena ser degustada.

Jaime Arantes, Monólitos Post - Quixadá - Ceará

sexta-feira, 24 de julho de 2015

I PUT A SPELL ON YOU


Um piano espalha um blues na noite de neblina,


Eu me pergunto por onde andarás a esta hora,


Se meu coração está abrigado no teu peito,


Se não te perderás das juras que me fizeste,


Se teus olhos não se desviarão dos meus...


Ajuda-me a suportar o peso da insegurança,


Do tempo e da distância que nos separam,


Ajuda-me a acreditar que nosso amor tudo supera,


E que teu beijo só me pertence.


Deixa que teu mar me conduza em águas calmas,


Deixa-me esquecer que um dia já fui náufrago 


Para lembrar que teus braços são agora meu porto seguro.


***


Um piano espalha um blues na noite escura, sem lua.


Só tua lembrança me ilumina.



Hérlon Fernandes Gomes

1 de Julho de 2015

Ao som de Nina Simone.





quinta-feira, 25 de junho de 2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

“Lúmen”: pra dizer do amor

           

           Já decretaram o fim da poesia. Já apontaram para o não-lugar da poesia na sociedade pós-moderna. Não é necessário nenhum estudo aprofundado para constatarmos o pequeno consumo de poesia no Brasil. Os desafios em publicar um livro são enormes. E não me refiro aos meios digitais e às formas de manipulação literária do presente, mas do velho e bom livro, aquele que a gente pega, folheia, cheira, põe embaixo do braço e com ele viaja, literalmente. Vez ou outra nos deparamos com gente louca, de uma loucura que é bonita e faz bem – os loucos pela literatura, que atraídos pela necessidade de escrever, rompem todas as dificuldades e, por vezes, custeiam sozinhos a publicação dos seus manuscritos. Dentre os loucos que não engavetam os seus poemas apesar dos percalços, está Hérlon Fernandes, autor de “Lúmen: entre as matizes da alma e do coração”, publicado no ano de 2014. O jovem poeta reforça o coro de que a poesia não morreu e nem está prestes a morrer. Apesar de tudo, a poesia vive.
            “Lúmen” habita muitos lugares, é feito de muitas cores e de sentimentos variados: medo, raiva, ilusão, saudade, insatisfação, tristeza, alegria, esperança, paixão. Contudo, é o amor que perpassa todo o texto. Na poesia de Hérlon o amor assume as suas múltiplas faces. O amor é evocado, muitas vezes, a partir de imagens que se opõem ou, ainda, pela negação da existência do sentimento. A presença (ausência) do amor pode ser percebida em tempos de guerra a partir de pequenas fendas por onde se avista um eu lírico dilacerado, como em “Primavera em Bagdá”, onde “o amor desaparece, corriqueiro, pela estrada” em detrimento da violência. Como amar em tempos de guerra? “Lúmen” faz o amor escorregar-se por todos os cantos, mesmo quando a ênfase recai sobre outro sentimento, vê-se a imagem do amor anunciando-se por uma fresta qualquer, fazendo-se contraste, fazendo-nos pensar para além das cinzas produzidas pelas guerras.
            “E de repente, eu me calo; eu emudeço diante da dor do mundo”. A dor do mundo é o que não tem nome, é o que não se pode dizer, é o que nos rouba a fala. E assim, “Lúmen” segue abrindo espaços para que o amor se instale ou, quem sabe, se faça perceber. A delicadeza poética de “Lúmen” reside na necessidade de sentir e de dizer, mesmo que não diga de modo explícito, deixa brechas na linguagem carregada de sentidos. “Cinzas da Guerra”, primeira parte do livro, é composto de muitos tons de cinzas que, ao serem misturados, assumem novas cores, insinua-se o nascer de uma cor que não sabemos ao certo qual é. Nessas pinceladas poéticas o homem é máquina, o rio é solitário e a canção é morna. O que “nos impede de amar” e “nos proíbe de avistar o pôr do sol” é poeira cinza que, no final, se desfaz no espaço. Para além do cinza e das cinzas de todas as guerras, o eu poético reconhece o seu lugar no mundo e, com isso, indica a “chave secreta”.
            Hérlon abre todas as portas e janelas para que, por meio delas, outras cores sejam notadas. Não basta vê-las, é preciso senti-las. Na segunda parte, o azul e as fragrâncias da alma, com todas as suas inquietudes, azul que é azul e outras cores mais, é um convite à vida e é “lembrança do mar”, fios de cor constituindo a memória, aproximando presente e passado, fios que apesar de esgarçados recuperam o afeto, lembrança daquilo que não se deixou desbotar. Azul é a cor escolhida para fazer emergir entre versos de poesia o lugar antropológico de todos nós, o sujeito e as suas raízes.
            Violetas vêm pra dizer de um amor sonhado, assim com diz o vermelho acerca de um amor vivido. Entre a violeta e o vermelho, ocres das desilusões. Nessas cores, o amor assume as suas faces de modo explícito, e o que vemos é um eu lírico que sabe dizer do amor que viu e (não) viveu. O que quer o amor? Ao dizer de um sentimento que se espraia, Hérlon responde essa indagação de diferentes modos, sobretudo por ir além do sentimentalismo, por fazer pensar sobre o amor em tempos difíceis. Falar de amor nunca será piegas – o amor que é de todos. Termino a leitura de “Lúmen” com o desejo de que “o amor cresça, sem as urgências das nossas pressas”.   


Elieudo Buriti, 16 de junho de 2015, Porto Velho/RO
* Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia.


Fiquei extremamente lisonjeado com a crítica feita pelo amigo e professor Elieudo, um sentidor de alma, e um amante da literatura. Minha poesia se sente envaidecida de suas palavras elogiosas. 

H.F.G

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O CONCERTO DA PAIXÃO


Pingam gotas de loucura no devaneio,

O vento sopra ilusões de agonia,


O coração rasteja a sede da incompletude


E se debruça no lago da esperança,


Onde as águas são turvas de incertezas...


Mas há beleza em tudo isso:


Nos palpitares de medo também há luz,


Nas descrenças também há êxtases eternos


E promessas de manhãs ensolaradas.


***


Não se importe se toda a doçura não é pura.


A alma sabe digerir amargos desconhecidos,


Feiuras aparentemente incompatíveis 


Quando a paixão não cala.



Hérlon Fernandes Gomes

sexta-feira, 20 de março de 2015

FORTALEZA



Também preciso ser forte quando não estou,


Até quando me desabo para mim mesmo


E meus escombros me assustam em desolação.


Preciso ser forte quando ninguém me vê,


Já que não preciso camuflar a fragilidade do ser,


Mas preciso acender em mim esse impulso de me resgatar


Porque as sombras não me servem de abrigo,


Gosto do sol nas costas e do conforto do riso.


Não posso deixar que o medo se demore em mim,


Nem que a penumbra escura me carregue em hibernação.


Eu sou da música e do sonho;


Sou da esperança e da paixão.


Preciso ser forte quando já não creio,


Então que a fé esquecida em mim seja império


E me anuncie ao mundo que vale a pena viver!



Hérlon Fernandes Gomes


12 de Março de 2015

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ADVERTÊNCIA (PARA MAIORES DE 18 ANOS)



Atenção ao deitar-te na cama com um poeta!

Ele é tão comum como os outros.

Os beijos podem ser quentes ou insossos,

Haverá êxtase ou descontentamento.

Diálogos sem fim podem ser travados

Ou a linguagem plena do corpo dominará a madrugada.

Mas atenção, um só detalhe:

Embora a noite se sucumba,

Antes disso,

Se tiveres os olhos d'alma

Talvez te permitas velejar

Na captura leve, doce,

Ensandecida,

Como nunca te sentiras antes.

E, nesse céu, onde os gostos assumem outras intensidades,

Para sempre te percas.





Hérlon Fernandes Gomes


14 de novembro de 2014.


P.S.: Como é bom quando as madrugadas nos enfeitiçam.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

OLHARES, RELÂMPAGOS, AÇOITES



Eu posso imaginar a umidade do teu perfume nu sobre a cama e a maciez da tua pele leitosa a iluminar a penumbra.

Eu desconfio que teu gozo acontece de olhos fechados, enquanto sorris de êxtase para o mundo.

Suponho que, nesse prazer, existe um silêncio de tua presença a dizer tanto de ti mais que se me descrevesses teus sentidos.

Ensaio meus dedos no ar, como a acariciar tua nuca e espalhar o feitiço dos teus cabelos negros pela madrugada...

Ah, se teus olhos pousassem nos meus, um pouco além do que um relâmpago de açoite, eu me instalaria para sempre em ti, penetrando teu insondável íntimo, e te roubaria para a terra da liberdade, onde pecado é ter medo de ser feliz.

***

Não haverá canto do teu corpo que eu não desvende com meus beijos;

Não transcorrerá segundo vago entre nós que eu não preencha de doçura, de quenturas, eternidades e explosões de encanto.


Hérlon Fernandes Gomes
29 de Maio de 2014.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

FAXINA NA ALMA





Todos temos dias cinzas, de silêncios de chumbo, de choros escondidos debaixo do chuveiro, por trás dos óculos escuros. Sim, todos temos dores inconfessáveis, frustrações que se acumulam pelos cantos da alma. O que precisamos fazer é afogar tudo isso, por mais que não se possa, com truques de mágica, fazer sumir esses escombros de nós. Passemos, portanto, nossa vassoura, nem que seja timidamente, nessa sujeira. Não acumulemos nossas lamúrias; não transformemos nossas angústias em bibelôs de estimação, nem exibamos nosso sofrimento só para mendigar um carinho qualquer. Não existe luz em nós quando nos cobrimos de sombras. Mantenha os óculos escuros, chore sozinho debaixo do chuveiro e mate suas dores de desprezo! Sempre existirão fagulhas de esperança e força no nosso íntimo, capazes de nos despertar para o inconcebível de nós mesmos.




Hérlon Fernandes Gomes

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

FOGO-FÁTUO


As paredes me assombram com o eco de tuas palavras,

O chão está coberto da areia dos teus sapatos

E eu tenho medo e preguiça de varrer o que restou de ti.

Os lençóis me iludem com o teu cheiro natural,

E a cama nunca foi tão grande e insone. 

Meu corpo está marcado por teus beijos e carícias, 

Arrepio-me quando me toco ao relembrar nosso ritual de amor.

***

O relógio se cansa para calcular o tempo que nos separa, 

É preferível contemplar as estrelas

A medir florestas e desertos que nos distanciam.

Ainda assim, é tudo tão vivo de presente,

É tudo tão doce e palpável 

Que esse futuro adiado me anima,

Esse destino de degredo não me desola.

Eu me cubro de esperanças,

Aceito viver de lembranças 

E me acorrento aos fantasmas que restaram de ti.


Hérlon Fernandes Gomes, Lúmen. 

P.S.: Este foi o último poema de Lúmen, uma das coisas mais verdadeiras que gostei de escrever.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

PASSIO



A cegueira da paixão,


Aquela inconsequente e suicida,


De entrega absoluta, de irresponsável senso...


Temo que as frestas de minha visão estejam destrancadas
E agora, de olhos abertos,


Eu não consiga mais mergulhar nesse abismo sem fundo, de tantos perfumes e sensações devastadoras.


Já quebrei todos os meus ossos


E chorei todos os rios de desilusão.


A cegueira se dissipou e me atracou no cais,


Onde os pés se fincam firmes


E a razão é meu império de conforto.


Meu coração sente falta da deriva do desejo,


Do desconforto da espera,


Do alvoroço do encontro.


***


Meu coração jovial sabia ter cor na guerra.



Hérlon Fernandes Gomes, 12 de Janeiro de 2014.



O olhar de Glauber Oliveira, talentoso fotógrafo brejossantense, tem-me inspirado a mergulhar no imaginário dessas fotografias.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS


Afinal, o Cariri é cearense? Como caririense da gema, natural de Brejo Santo e perambulador entre as cercanias de Juazeiro do Norte e do Crato, lugares de onde reconheço minha formação intelectual, cultural e, portanto, humana, devo afirmar, confirmando as suspeitas de muitos dos meus conterrâneos, que o Cariri é meio Ceará e meio Pernambuco, assim como a parceria musical de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

Hoje, minha aparente noite de quarta-feira insossa foi coroada com uma surpresa de poesia através do Canal Brasil: o documentário O Homem Que Engarrafava Nuvens (2010). Dirigido por Lírio Ferreira, esse belo trabalho explora o gênio do compositor Humberto Teixeira - cearense de Iguatu que, juntamente com Luiz Gonzaga - o pernambucano de Exu, foram alma e corpo do baião brasileiro, esse ritmo universal.

Guiado sob o enfoque de Denise Drummond, filha de Humberto, o documentário traça um paralelo entre o homem e o artista que formam esse gênio do sertão, da mesma maneira em que alarga o compasso para traçar o ângulo infinito de alcance desse ritmo que é uma quintessência para a Bossa Nova, Tropicália, o rock and roll de Raul Seixas e até a fabulosa tese de que tenha influenciado Bob Marley, na longínqua Jamaica, a criar o reggae.

O filme é aquilatado por depoimentos dos mais instigantes ou trechos de performances musicais, como os de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sivuca, Gal Costa, David Byrne, Fagner, Belchior, Mutantes, Elba Ramanho, Alceu Valença, Cordel do Fogo Encantado, Otto, Bebel Gilberto... Tudo isso para formar uma colcha de retalhos onde, em cada pequena e rara estampa, está a marca de Humberto Teixeira, um sentidor da alma sertaneja que universalizou nossa cultura através do baião, esse ritmo sem fronteiras.


Distante da minha terra, do meu Cariri saudoso, eu me arrepiei durante a exibição do filme e tanto me envaideci por ser cearense, por ser caririense, por viver essa dicotomia pernambucano-cearense. Vale muito a pena assisitir para se sentir orgulhoso de ser brasileiro, para se prestigiar o rico trabalho de Lírio Ferreira, idealizador de um roteiro magnífico e diretor deste que é um dos melhores documentários já produzidos até então. 

Hérlon Fernandes Gomes